domingo, janeiro 05, 2020

Amor Incondicional

Às 02h20m do dia 5 de janeiro de 2012, a minha vida mudou.
No hospital bramia um silêncio tranquilo, os passos das equipas médicas quase não se faziam sentir, as suas vozes proliferavam uma calma inquietante que contrastava com aqueles que ansiavam pelo momento da viragem das suas vidas.
Os minutos embora cumprissem os sessenta segundos habituais, passavam-se num espaço temporal que nos permitiam pensar em mil e um cenários sobre o que se avizinhava a qualquer momento. Tudo parecia estar a mudar, tudo o que, até aquele momento, era a minha vida estava a mudar numa velocidade vertiginosa. O que há umas horas era uma certeza era agora uma incógnita, uma incerteza inquietante sobre o futuro, um desafio para qual não se prepara, sei hoje que apenas se aprende vivendo-o.
No silêncio da noite fria de janeiro, às 02h20m, irrompeste no teu primeiro choro alimentando um amor que não se consegue explicar,
(haverá algum amor que se consiga explicar?)
naquele instante, o meu eu deixou de ser eu e passou a ser nós, eu deixei de ser um simples homem, e passei a ser pai, passei a ser uma segunda prioridade porque a minha vida ficou centrada em ti que choravas de pulmões cheios, preenchendo o silêncio da noite com a tua chegada.
A minha vida mudou porque eu mudei naquele instante em que te ouvi, num momento de osmose eu fiquei absorvido por um amor que cresce todos os dias, a cada interação, a cada pensamento, e quando pensamos que é impossível amar mais, eis que nos surpreendemos ao percebermos que o amor não tem limites.
O primeiro olhar para ti foi terno e reconfortante, olhei e vi o fruto de um amor que também cresce a cada dia, ver-te no colo da mamã foi o realizar de um sonho, e naquele momento, as juras de amor saltitavam na minha cabeça, com um único propósito, fazer-vos as pessoas mais felizes do mundo, e viver em função disso, porque quem ama assim, não precisa de mais nada para se realizar como Homem.
Quando temos o privilégio de sermos pais ficamos com a capacidade
(todos o conseguem, a tarefa apenas fica facilitada)
de compreender mais facilmente o amor dos nossos pais, percebemos o quão injustos fomos em determinadas situações, pela simples ignorância de não compreendermos a complexidade do amor incondicional entre pais e filhos. Não é só o amor dos pais pelos filhos que aumenta a cada instante, também o amor dos filhos pelos pais cresce, vai-se alimentando ao longo da vida, e creio que passa para um patamar diferente quando o despertamos na sua plenitude, a degustar cada momento que temos o privilégio de o vivenciar, a senti-lo como um amor incondicional.
Todos os dias agradeço-te por fazeres de mim uma melhor pessoa, porque és o melhor de mim, e por isso carrego a responsabilidade de te dar tudo aquilo que me dás e que sei que nunca poderei retribuir, porque me ensinaste a conhecer o que é amar incondicionalmente.

terça-feira, dezembro 25, 2018

"Nas tuas preces não supliques por cargas mais leves, mas sim por ombros mais fortes"


Este texto dedico-o a um grande amigo, que me ensina todos os dias a ser uma pessoa melhor, percebendo a vida pelo seu lado mais bonito, mais positivo e sempre com as costas direitas e queixo levantado.

As horas fogem-nos numa espiral de um tempo que nos cerca e nos envolve em todos os seus movimentos. No relógio passam minutos roubados que se evaporam, que se perdem, ou que simplesmente fogem ao cumprimento da métrica física dos segundos. A procura constante deste tempo que nos escapa por entre os dedos, que nos desaparece a cada instante, promove o nosso estado de perenidade, quer pela incapacidade de o controlarmos, de podermos respirar sem perder mais um pedaço de um segundo no instante de um sopro que se expira para o coração bater, forte, acelerado e contínuo; quer pela perceção crua e dura de que não somos nem omnipresentes, nem omnipotentes, apenas seres em que vivemos instantes, que passam, que simplesmente seguem na corrente da vida.
A sala onde me encontro está repleta de pessoas, observo-as, analiso cada gesto, da mesma forma quando me vejo ao espelho, observo cada movimento, cada sinal dos seus gestos nervosos da rotina do dia a dia, percebendo aqueles que já deram conta da realidade inevitável do desencontro do tempo e da disponibilidade, e nesses, o sabor amargo de quem sabe o que está a acontecer perdura mais forte no palato do seu semblante.
Ainda que o meu telemóvel continue a tocar vezes sem conta, ainda que a bateria do telemóvel se vá esgotando numa cadência assustadora, ainda que a minha voz que se iniciou vigorosa esteja mais próxima de um sopro de exaustão, continuo e persisto numa resiliência desgastada a escrever nas teclas do meu computador que vão ficando cada vez mais presas, deixando a fluidez de outrora esquecida nos instantes roubados. Olho em volta, todas as premissas indicam um desfecho, no entanto, decido que sou eu quem domina os atos desta peça de teatro que é a vida, decido que a caixa de correio eletrónico que baila ao som de uma batida forte e constante de um bombo vai tocar a música que eu quiser, pois enquanto houver forças no querer, e o desejo se mantiver intocável, o primeiro comandará a marcha da melodia que nos sopra aos ouvidos: “Nas tuas preces não supliques por cargas mais leves, mas sim por ombros mais fortes”.
Os olhos ardem-me, o meu corpo que quero hirto e de costas direitas está dorido, mas a minha mente mantém-se focada no desejo de ultrapassar todas as adversidades, e nesse momento, fecho os olhos por uns instantes, uns milésimos de segundos preciosos, onde vejo que está tudo escuro, não vislumbro qualquer luminosidade, apenas um manto negro que se vai descobrindo até aparecerem um conjunto de imagens desconexas a rodearem-me a cabeça, e nesse preciso momento, inspiro e deixo o ar fluir lentamente, e à medida que o ar sai, a minha alma enche-se com a força do pensamento positivo. 
Abro os olhos, passaram apenas uns instantes que não chegaram a perfazer um segundo, analiso o que me rodeia, levanto-me e percorro a sala com o olhar fixo e levantado, sentindo uma luminosidade que se passeia sobre mim, dando-me força nestes ombros que estavam a vacilar, de modo a que consiga carregar o que tiver que carregar para que o meu querer consiga concretizar os meus desejos.

sábado, maio 19, 2018

O Despertar

Acordo e vejo-me numa sala pequena, ligeiramente fria para esta altura do ano, com paredes pinceladas de branco, cobrindo cada uma das suas faces. A sala está despida de ornamentações, apenas se veem dois cadeirões negros, que chamam por mim, convidando-me a sentar para encontrar na profundidade e complexidade do meu eu, a tranquilidade de um sono interrompido.
Fecho os olhos à procura de voltar para a adormecer, mas estou demasiado irrequieto. Fecho novamente os olhos e esforço-me por voltar, mas apenas consigo ter uma imagem do meu corpo a dormir, tranquilamente, enquanto o meu cérebro tenta processar toda aquela situação. Estarei a dormir? Estarei a sonhar? Onde estou?
Sento-me no primeiro cadeirão de pele que conforta o peso do meu corpo que poisou nele e quietou, relaxando ao compasso de um ralenti ajustado para diminuir a agitação do momento. Respiro fundo à procura de uma explicação racional, mas apenas consigo focar-me no cadeirão da frente, uma espécie de complemento do outro cadeirão, geometricamente colocados um em frente ao outro, formando um círculo fechado que se estica, sem deixar uma brecha para uma fugida. Os cadeirões mostram sinais de uso, há marcas na pele que circundam a meia lua onde apoiamos as costas, e onde termina uma marca num cadeirão, começa no outro, como linhas que se unem.
Desistindo de procurar voltar, começo a apreciar aquela sala, tudo nela parece não fazer sentido, o cadeirão que me chamou está de frente para a junta de duas paredes, a da direita está pintada com lágrima, dando um aspeto rugoso, enquanto a da esquerda é simplesmente lisa. Há dois cadeirões que se unem e há duas paredes de uma mesma sala distintas. O que parece ser um espaço sem sentido começa a transformar-se num enigma, onde a sua descoberta se transformará na chave de todo este mistério.
Olho em volta e percebo que já são horas, já é tempo de fazer valer os passos de uma vida que não se quer vivida presa em liberdade. Observo tudo novamente e percebo que o cadeirão da frente fita-me nos olhos, desafiando-me a procurar a saída daquele círculo ovalizado. Tento levantar-me para pensar melhor, mas a minha tentativa tornou-se infrutífera, estou preso.
Ao longe ouço o toque de um relógio de igreja, é sinal que o tempo ainda passa e eu continuo aqui sentado, sem fazer ideia de como sair. Cada vez sinto-me mais inquieto, remexo-me com vigor, cada vez mais irritado, chegando mesmo a roçar o medo daquela realidade paralela. Noto que a cada tentativa os cadeirões ficam com mais marcas, umas mais brandas, outras mais marcadas, dependendo da intensidade da minha tentativa embrutecida em sair daquele cadeirão e daquela sala. Fecho novamente os olhos, desta vez não procuro o sono, procuro apenas descansar, deixar o corpo e a mente relaxarem, na esperança que a racionalidade me traga a solução daquele puzzle.
O sino voltou a tocar, com mais vigor, não tendo conseguido contar os toques que me indicariam as horas, mas seria certamente quase de manhã, pois o sol entrava timidamente pelas frinchas da janela alumiando a sala, onde pude ver que o branco era mesmo cálido, bonito e fresco como a vida deve ser. Naquele momento, senti uma estranha tranquilidade, como se já não quisesse sair dali. Respirei fundo, inspirando a brisa fresca que permanecia no ar, olhei em volta e tudo me parecia diferente, tudo me transmitia calma e serenidade. Sentia-me cada vez mais confortável naquele cadeirão, no entanto, algo mudou, os cadeirões já não estavam geometricamente colocados em frente ao outro, já não faziam um círculo fechado, estavam ligeiramente deslocados um do outro. Procurei calmamente levantar-me, e no cadeirão onde me sentei senti nas costas a iniciar-se mais uma linha, desta vez ténue que percorreu o cadeirão, e na saída embateu na parede de lágrimas, percorrendo-a até à parede lisa, ganhou espessura para que no momento em a percorria uma porta surgisse do nada... a porta da saída.
Fechei os olhos para saborear aquele momento, para ganhar coragem para sair daquele espaço incógnito, para sentir novamente a serenidade daquele lugar, e quando os abri eram horas de me levantar, o despertador acabara de tocar.

sábado, dezembro 09, 2017

A Vida Num Carreiro

 
UMA FOTO, UMA LEITURA
 
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)


 
É neste carreiro coberto por esta terra enlameada, rodeada de uma pureza agreste que deambulamos sempre com o mesmo rumo. A rotina repete-se vezes sem conta, e em todas as vezes que passeio por cima desta manta húmida, deste livro que carregamos todos os dias, vazios de letras, mas cheio de sentimentos, histórias e recordações que se perdem na memória de quem as vive. É neste caminho que me reencontro todos os dias, que olho em redor e vejo uma vida a correr, tal com neste preciso momento, olho para trás, e tento reviver todos esses momentos que não ficaram escritos para memória futura, e é a pensar em como esse livro se escreveria que tento sorrir
 
     (que lindo sorriso, como só os sorrisos genuínos conseguem ser…)
 
em busca de uma ajuda para organizar algumas dessas lembranças, independentemente se serem mais felizes ou menos felizes, procuro apenas não me esquecer delas, e começar a preencher essas páginas brancas da minha memória.
 
     Quando piso esta terra, parece-me sempre que é a primeira vez, passada atrás de passada tento acompanhar o ritmo de quem me guia. Outrora os passeios eram mais céleres, havia uma cadência mais ritmada, que nos obrigava a acertar o passo e procurar apreciar rapidamente cada paragem com um prazer único, daqueles que só se consegue sentir quando não se sabe quando será o próximo. Hoje os passeios são ritmados com mais paciência, as paragens são mais demoradas, há tempo para a pastagem e para apreciar em redor as pequenas pérolas que este espaço esquecido no tempo nos oferece. Olhamos à nossa volta e vemos a paisagem virgem e despida da natureza que se renova a cada ano. Num canto vemos os arbustos vazios das folhas que comemos, noutro lado as árvores cheias de ramos desnudados, mas grossos e robustos, esperando, tal como nós, que após a passagem deste frio que se sente a entrar pela nossa alma, frondesça o calor que nos aquece e preenche por mais umas estações.

     Continuo o meu caminho e penso na beleza que há neste vazio, nesta ausência de vida acelerada, e sempre que penso mais profundamente sobre isso, deixo-me levar pelo vagar, pelo direito que adquiri em parar sempre que me apetece, e olho, aprecio aquele fundo que se perde na curva dos montes, aquela paisagem que já não foco como antigamente, mas sinto-a como se a estivesse a ver pela primeira vez. Com esta capa pesada, e suja deste pó que se acumulou ao longo dos anos, dou o mote para seguirmos o trajeto, mas os animais já não têm pressa. Já não sei quem guia quem, só sei que vamos pelo mesmo caminho, eles é decidem o ritmo, andam cada vez mais devagar e mais junto de mim, como se percebessem o que me vai na alma, e numa osmose de sentimentos e vontades, olham-me nos olhos, chegam cada vez mais perto de mim, e com meiguice começam a lamber-me a capa, formando uma espécie de símbolos rupestres, tornando esta capa suja num livro que conta as histórias da vida num carreiro.

terça-feira, março 01, 2016

O Bosque


As portas do bosque abriam-se por entre duas enormes árvores que ladeavam o arvoredo verde vivo e fresco que pintava aquele cenário idílico onde o som do silêncio reinava. As árvores eram enormes, delas emanavam troncos largos e escuros, que se ramificavam até bem alto, sempre cobertos por umas folhas nunca antes vistas – além de terem uma forma que abraçavam os espaços vazios entre os ramos, eram coloridas com um verde singular, daquelas cores que parecem terem sido testadas várias vezes numa palete, até atingirem o ponto da perfeição.
Deparado frente à imponência daquela imagem, olhei em volta e não consegui vislumbrar viva alma a quem perguntar onde estava. Ali estava eu, sozinho, entre as duas árvores que se destacavam das restantes, quer pela sua imponência, quer pelo facto de formarem uma espécie de porta de entrada, daquelas que vemos nos antigos castelos. Os seus diâmetros deveriam ter mais de um metro, em altura não consigo sequer alvitrar um número, apenas sou capaz de dizer que as árvores, embora imponentes, tinham um aspeto vívido e de grande leveza, que convidavam singelamente a passar pelo meio delas. Lentamente aproximei-me, pisando as folhas húmidas, ligeiramente almofadadas, que cobriam o chão, traçando um caminho como um tapete que nos conduzia, ora cobertas por um castanho-avermelhado, ora cobertas por folhas verdes acabadas de cair. Fui entrando, percorrendo lentamente o traçado que me conduzia, sempre com um olhar para trás à procura da entrada que ia perdendo tranquilamente de vista. Não andei muitos metros para perceber que não estava num bosque qualquer, tudo nele era diferente, nem sequer consigo afirmar que se tratava de um bosque, apenas posso afirmar que aquele lugar estava rodeado de árvores com folhas especiais, uma terra escura e acolhedoramente húmida, e que estava envolto por um silêncio simpático e reconfortante que me purificava a cada passada, de tal forma que quando me lembrei de olhar para trás, para ver a entrada, apenas consegui descortinar um manto verde no seu lugar.
Continuei a minha caminhada pelo trilho que me dirigia, sempre pautado por um ansiado aumento de uma paz interior, percorria o caminho na esperança de ver viva-alma, na procura incessante de encontrar alguém no meio daquele lugar que se caracterizava cada vez mais como um lugar especial, onde só havia lugar para o bem-estar, para o conforto e tranquilidade. Não consigo precisar quantos minutos andei por entre aquele ar puro exalado pelas árvores, mas foi durante algum tempo, já nem conseguia vislumbrar o início da caminhada, até que cheguei a um ponto onde se cruzavam vários trilhos, podia escolher vários caminhos para continuar, todos eles eram idênticos, uns à direita, outros à esquerda, mas todos eles tinham o mesmo aspeto, as mesmas árvores, o mesmo chão, não havia nada que me pudesse fazer escolher entre os caminhos que se defrontavam diante de mim. Decidi seguir em frente, e à medida que me adiantava no caminho perdia de vista os caminhos laterais, a densidade das árvores cobriam qualquer possibilidade de espreitar como teria sido a opção por qualquer uma das outras vias. Andei calmamente, e sempre tranquilo, não obstante estar num local desconhecido e sem saber como regressar, caminhei compassadamente, não havia lugar para o cansaço tamanha era a beleza daquele lugar. Continuei, cada vez que dava uma passada crescia em mim uma tranquilidade como se pertencesse àquele lugar desde sempre. A meio do caminho consegui ver uma pequena abertura lateral, uma espécie de ramificação do itinerário principal. Espreitei e afastei os ramos que frondesciam desde o chão, e constatei que era uma passagem para um carreiro secundário. Decidi-me continuar no caminho principal, havia algo que me chamava a continuar o meu trajeto inicial. Sempre fascinado por tudo que me rodeava, ia paulatinamente deixando para trás todos os meus receios e tudo aquilo que me preocupava, aquela jornada estava a transformar-se numa catarse das minhas inquietações e de tudo aquilo que me pesava da alma. Passei novamente por veredas secundárias, ora apareciam à esquerda, como à direita, e em todas elas senti a mesma necessidade de continuar a caminhar pelo aquele chão que acolhia as minhas passadas com a delicadeza de quem nos afaga. Continuo sem conseguir precisar o tempo que passou, ou a distância que passou, mas foi depois de várias oportunidades de me desviar do caminho principal que me defrontei com uma brecha para um carreio secundário que me atraiu a atenção.
Comecei por afastar os ramos que frondesciam, era um caminho ligeiramente diferente dos anteriores, os ramos estavam a começar a crescer, o chão pareciam imaculadamente puro e por estrear, as árvores não me pareciam tão altas, mas tudo o resto era igual, apenas ficava a sensação que, embora a semelhança, tudo estava no início. Aventurei-me e comecei a percorrer aquele trilho, e à medida que o explorava, sentia que aquele lugar me pertencia, que havia sido desenhado para mim, tudo nele me preenchia e me realizava. No final da primeira passagem do atalho vislumbrei uma escada natural que me direcionava para uma casa de madeira, uma espécie de bungalow com um alpendre frontal. Aproximei-me e verifiquei que era mesmo uma casa, estava desocupada, mas pronta a habitar. Do seu interior conseguia-se ouvir uma melodia, não era nenhuma sinfonia, ou concerto, isso consegui descortinar, era apenas um som que proliferando pelas janelas um tom uníssono, natural e calmo, harmonizava aquele lugar. Havia luz, de fora não me parecia que fosse luz elétrica, a aluminação era quente e titubeante, transmitindo um cenário acolhedor. Quando cheguei mais perto consegui confirmar que a casa estava desocupada. Decidi bater, e na ausência de não ouvir qualquer resposta, decidi entrar. O interior era como eu imaginava, uma casa de madeira, simples, apenas com o que era essencial, cadeiras, uma mesa, uma lareira, um cadeirão, uma cama e algumas velas que combatiam a escuridão. Numa primeira impressão não descortinei mais nada e tudo me parecia magnífico. A casa era pequena, mas suficientemente para as minhas necessidades. Já sentia a casa como minha, dei por mim a sentir que tinha sido preparada para a minha chegada, até que me passou pela cabeça que podia estar preparada para outra pessoa, pelo que, decidi voltar a sair e procurar por alguém. Quando saí da porta principal, fiquei paralisado... tudo estava diferente.
Para começar, o alpendre frontal estava preenchido com dois cadeirões, com umas mantas nas suas costas, que baloiçavam ao sabor do vento. A paisagem que rodeava a casa deixou de estar pintada de arbustos daquele verde singular e de árvores enormes. A casa encontrava-se agora alteada no cimo de um monte, e do alpendre vislumbrava-se uma vista celestial, finalizada lá no final da ravina com um enorme lago azul. Ainda sem conseguir processar a informação que os meus olhos viam, olhei em volta e a surpresa aumentava... havia outras casas iguais, todas elas eram exatamente iguais, eram imensas, todas elas situadas no cimo de um monte com vista para o lago azul que nos enchia a vista pelo horizonte fora. Nesse momento, tive a certeza de que aquele caminho que trilhei até aquela casa estava-me destinado e aquela casa foi preparada para mim.
No fundo da ravina verifiquei movimento, havia quem passeasse à beira do lago, outros estavam sentados na relva macia e fresca que coloria a ravina, outros olhavam o horizonte, e em todos eles podia-se vislumbrar uma tranquilidade serena de quem estava num lugar especial. Comecei a descer a ravina procurando fazê-lo na diagonal de modo a verificar se estava alguém na casa ao meu lado direito. Espreitei e verifiquei que era exatamente igual àquela que eu considerava minha, no alpendre estavam duas cadeiras e uma delas estava ocupada por um homem de barbas grisalhas, a fumar cachimbo, exalando um cheiro doce. Aproximei-me. O homem já havia dado por mim, mas esperou que fosse eu o primeiro a falar. Assim que cheguei à entrada do alpendre saudei-o:
-      Olá! – iniciei eu a conversa.
-      Olá! – respondeu o homem com um ligeiro sorriso na face.
-      Será que me pode ajudar? Sabe-me dizer se a casa aqui ao lado está ocupada?
-      Claro que posso. Aqui todos nos ajudamos uns aos outros. Aquela casa agora está ocupada.
-      Ah... Por alguma daquelas pessoas que estão lá em baixo, decerto. – atirei eu.
-      Não me parece. Aqui as casas são de quem as descobre, de quem consegue caminhar até elas, de quem as consegue encontrar.
-      O que quer dizer com isso?
-      Quero dizer que aquela casa é sua. – disse o homem, novamente com um sorriso nos lábios.
-      De facto, entrei há pouco tempo neste bosque. Fui caminhando e, quando dei por ela, tinha a casa à minha frente. Mas, quando entrei tudo no bosque era diferente. Entrei para a casa com uma envolvente e saí dela com outra completamente diferente. Como uma espécie de passagem.
-      Disse que está cá há pouco tempo? Isso não sei, aqui perdemos um pouco a noção do tempo. Mas, se confirma que a encontrou, então tenho razão, é sua. Seja bem-vindo.
-      Bem-vindo? Onde é que estamos? – perguntei eu.
-      Isso não é o mais importante. A verdadeira pergunta que deve fazer é se está bem. Sente-se em casa?
-      Realmente este lugar é bastante agradável, sente-se uma tranquilidade que nunca havia sentido anteriormente. Mas, desculpe a insistência, onde é que estamos?
-      Estamos em casa. Esta é a sua nova casa.
-      Em casa? Então, e a minha vida que deixei fora do bosque? Como é que podemos voltar para aquela entrada ladeada de duas enormes árvores seculares?
-      Quer voltar? Basta recorrer às lembranças que tem dentro de si.
-      Lembranças? E fisicamente? Confesso que estou um pouco perdido. – desabafei eu.
-      Não se preocupe, é para isso que eu estou aqui, e é para isso que vai estar aqui para um próximo vizinho seu. Mas, antes de explicar, faça-me companhia e sente-se neste cadeirão. – convidou o homem.
O homem antes de começar a falar voltou a acender o cachimbo, fazendo-me sinal para utilizar a manta que estava nas costas da cadeira.
-      Se olhar à sua volta verificará que estamos num local especial. Eu falo por mim, nunca havia visto uma paisagem tão bonita, nem nunca tinha sentido esta paz interior que nos enche a alma. Este é lugar é a nossa casa, sempre foi, nós é que temos primeiro uma passagem por outro lugar, até conseguirmos chegar à entrada das árvores seculares, como tão bem batizou. Uns conseguem encontra-la na primeira passagem, outros à segunda, e outros nas vezes que forem necessárias para que consigam ser chamados pelo bosque. O que eu quero dizer é que quem consegue chegar aqui, conseguiu atingir o seu propósito, e agora pode usufruir de todo este esplendor. Quando há pouco lhe disse que não sabia há quanto tempo estava aqui, foi porque na verdade, depois de entrarmos no bosque, há uma longa caminhada a cumprir, é uma espécie de purificação, e só depois de estarmos completamente preparados para esta fase é que conseguimos descortinar o nosso trilho, que por sua vez, vais dar acesso à nossa casa. E foi o que lhe aconteceu. Depois de encontrar a sua casa, terminou o seu processo de catarse e encontrou o lago, as restantes casas, e os seus companheiros do bosque.
-      E o que é que podemos fazer por aqui?
-      Tudo o que quisermos, quando quisermos e como quisermos. Se estamos aqui, tudo aquilo que fizermos não prejudicará ninguém. Vai ver que não faltará o que fazer.
-      E a minha família que eu deixei?
-      Se encontrou esta casa é porque a sua família está bem, e sabe que também está bem, onde quer que esteja.
-      Acho que já percebi.
-      Já percebeu há algum tempo, só precisava de uma confirmação, de uma voz amiga que o ouvisse, que o acolhesse e que lhe dissesse que está tudo bem.
-      Isso parece-me uma forma muito eufemística de me dizer que morri. – disse eu sem pensar.
-      Não, meu filho, não morreste. Apenas ganhaste direito ao descanso eterno.  

segunda-feira, novembro 30, 2015

Um Passo a Compasso

O parapeito da varanda estava frio e ligeiramente húmido. Tirei o maço do bolso do casaco de malha e coloquei um cigarro na boca. Apertei a roda do isqueiro e ouvi o barulho riscado da pedra a fazer faísca, e o lume surgiu. Coloco a ponta do cigarro no fogo e ouço as folhas secas do tabaco a começarem a arder. Dou a primeira passa, o fumo baila na minha boca, deixando uma sensação de secura dormente, e no fim puxo-o e travo-o na garganta. Ao meu lado tenho uma chávena de café, que vou bebericando, e no horizonte, desvenda-se um céu soalheiro que começa a ser coberto por nuvens cinzentas-escuras e espessas. As nuvens ordenam-se, como se cada uma delas soubesse exatamente o seu lugar. A cada passo, o céu outrora soalheiro, torna-se escuro e tristonho, mesmo que vagamente iluminado por raios de um sol tímido que penetram os espaços entre as nuvens se enchiam como nuvens de algodão doce.

As nuvens estavam colocadas como se fossem pinceladas por um artista renascentista, pareciam-se com uma fileira que estava a postos, mais à semelhança de uma orquestra, de iniciar a música, faltando apenas o sinal do maestro para que as nuvens tocassem a obra preparada. Foi ao longe que se ouviu o som forte e pesado de um trovão, e substituindo-se ao maestro, deu o mote de partida para que do céu caíssem as primeiras pingas, as primeiras notas vertidas numa cadência própria, iniciando-se a sinfonia do dia. As pingas grossas começam a salpicar o parapeito, deixando no ar o som cristalino das notas que melodiavam aquele início de tarde. Havia uma certa suavidade no tom e na forma quando se juntavam às restantes pingas, que numa metamorfose deixavam ser muitas e passavam a ser uma, apenas maior.

O som pingava a futuro, a cada passa que inalava, queimando o ar húmido que começava a instalar-se, as pingas chocavam na pedra granítica um tom agudo e airoso, o dó e o ré juntavam-se naquela poça de água que começava a alargar-se no parapeito, deixando-se escorrer por uma parede cálida e com fendas de histórias que se passaram a cada ano que passa. O cigarro está a chegar ao fim, apago-o no cinzeiro deixando a beata de pé; oiço a chuva a continuar a cair suavemente, orquestrada numa sinfonia própria de quem sabe que o destino está ali, mesmo ao nosso alcance, onde só temos que olhar em frente... com os olhos da esperança.

A Menina de Nariz Rosado

Nota de Autor: Este pequeno conto foi escrito a pedido da minha filha há 3 anos. Na altura, quando me sugeriu o Título, eu não sabia como po...