terça-feira, março 01, 2016

O Bosque


O BOSQUE
As portas do bosque abriam-se por entre duas enormes árvores que ladeavam o arvoredo verde vivo e fresco que pintava aquele cenário idílico onde o som do silêncio reinava. As árvores eram enormes, delas emanavam troncos largos e escuros, que se ramificavam até bem alto, sempre cobertos por umas folhas nunca antes vistas – além de terem uma forma que abraçavam os espaços vazios entre os ramos, eram coloridas com um verde singular, daquelas cores que parecem terem sido testadas várias vezes numa palete, até atingirem o ponto da perfeição.
Deparado frente à imponência daquela imagem, olhei em volta e não consegui vislumbrar viva alma a quem perguntar onde estava. Ali estava eu, sozinho, entre as duas árvores que se destacavam das restantes, quer pela sua imponência, quer pelo facto de formarem uma espécie de porta de entrada, daquelas que vemos nos antigos castelos. Os seus diâmetros deveriam ter mais de um metro, em altura não consigo sequer alvitrar um número, apenas sou capaz de dizer que as árvores, embora imponentes, tinham um aspeto vívido e de grande leveza, que convidavam singelamente a passar pelo meio delas. Lentamente aproximei-me, pisando as folhas húmidas, ligeiramente almofadadas, que cobriam o chão, traçando um caminho como um tapete que nos conduzia, ora cobertas por um castanho-avermelhado, ora cobertas por folhas verdes acabadas de cair. Fui entrando, percorrendo lentamente o traçado que me conduzia, sempre com um olhar para trás à procura da entrada que ia perdendo tranquilamente de vista. Não andei muitos metros para perceber que não estava num bosque qualquer, tudo nele era diferente, nem sequer consigo afirmar que se tratava de um bosque, apenas posso afirmar que aquele lugar estava rodeado de árvores com folhas especiais, uma terra escura e acolhedoramente húmida, e que estava envolto por um silêncio simpático e reconfortante que me purificava a cada passada, de tal forma que quando me lembrei de olhar para trás, para ver a entrada, apenas consegui descortinar um manto verde no seu lugar.
Continuei a minha caminhada pelo trilho que me dirigia, sempre pautado por um ansiado aumento de uma paz interior, percorria o caminho na esperança de ver viva-alma, na procura incessante de encontrar alguém no meio daquele lugar que se caracterizava cada vez mais como um lugar especial, onde só havia lugar para o bem-estar, para o conforto e tranquilidade. Não consigo precisar quantos minutos andei por entre aquele ar puro exalado pelas árvores, mas foi durante algum tempo, já nem conseguia vislumbrar o início da caminhada, até que cheguei a um ponto onde se cruzavam vários trilhos, podia escolher vários caminhos para continuar, todos eles eram idênticos, uns à direita, outros à esquerda, mas todos eles tinham o mesmo aspeto, as mesmas árvores, o mesmo chão, não havia nada que me pudesse fazer escolher entre os caminhos que se defrontavam diante de mim. Decidi seguir em frente, e à medida que me adiantava no caminho perdia de vista os caminhos laterais, a densidade das árvores cobriam qualquer possibilidade de espreitar como teria sido a opção por qualquer uma das outras vias. Andei calmamente, e sempre tranquilo, não obstante estar num local desconhecido e sem saber como regressar, caminhei compassadamente, não havia lugar para o cansaço tamanha era a beleza daquele lugar. Continuei, cada vez que dava uma passada crescia em mim uma tranquilidade como se pertencesse àquele lugar desde sempre. A meio do caminho consegui ver uma pequena abertura lateral, uma espécie de ramificação do itinerário principal. Espreitei e afastei os ramos que frondesciam desde o chão, e constatei que era uma passagem para um carreiro secundário. Decidi-me continuar no caminho principal, havia algo que me chamava a continuar o meu trajeto inicial. Sempre fascinado por tudo que me rodeava, ia paulatinamente deixando para trás todos os meus receios e tudo aquilo que me preocupava, aquela jornada estava a transformar-se numa catarse das minhas inquietações e de tudo aquilo que me pesava da alma. Passei novamente por veredas secundárias, ora apareciam à esquerda, como à direita, e em todas elas senti a mesma necessidade de continuar a caminhar pelo aquele chão que acolhia as minhas passadas com a delicadeza de quem nos afaga. Continuo sem conseguir precisar o tempo que passou, ou a distância que passou, mas foi depois de várias oportunidades de me desviar do caminho principal que me defrontei com uma brecha para um carreio secundário que me atraiu a atenção.
Comecei por afastar os ramos que frondesciam, era um caminho ligeiramente diferente dos anteriores, os ramos estavam a começar a crescer, o chão pareciam imaculadamente puro e por estrear, as árvores não me pareciam tão altas, mas tudo o resto era igual, apenas ficava a sensação que, embora a semelhança, tudo estava no início. Aventurei-me e comecei a percorrer aquele trilho, e à medida que o explorava, sentia que aquele lugar me pertencia, que havia sido desenhado para mim, tudo nele me preenchia e me realizava. No final da primeira passagem do atalho vislumbrei uma escada natural que me direcionava para uma casa de madeira, uma espécie de bungalow com um alpendre frontal. Aproximei-me e verifiquei que era mesmo uma casa, estava desocupada, mas pronta a habitar. Do seu interior conseguia-se ouvir uma melodia, não era nenhuma sinfonia, ou concerto, isso consegui descortinar, era apenas um som que proliferando pelas janelas um tom uníssono, natural e calmo, harmonizava aquele lugar. Havia luz, de fora não me parecia que fosse luz elétrica, a aluminação era quente e titubeante, transmitindo um cenário acolhedor. Quando cheguei mais perto consegui confirmar que a casa estava desocupada. Decidi bater, e na ausência de não ouvir qualquer resposta, decidi entrar. O interior era como eu imaginava, uma casa de madeira, simples, apenas com o que era essencial, cadeiras, uma mesa, uma lareira, um cadeirão, uma cama e algumas velas que combatiam a escuridão. Numa primeira impressão não descortinei mais nada e tudo me parecia magnífico. A casa era pequena, mas suficientemente para as minhas necessidades. Já sentia a casa como minha, dei por mim a sentir que tinha sido preparada para a minha chegada, até que me passou pela cabeça que podia estar preparada para outra pessoa, pelo que, decidi voltar a sair e procurar por alguém. Quando saí da porta principal, fiquei paralisado... tudo estava diferente.
Para começar, o alpendre frontal estava preenchido com dois cadeirões, com umas mantas nas suas costas, que baloiçavam ao sabor do vento. A paisagem que rodeava a casa deixou de estar pintada de arbustos daquele verde singular e de árvores enormes. A casa encontrava-se agora alteada no cimo de um monte, e do alpendre vislumbrava-se uma vista celestial, finalizada lá no final da ravina com um enorme lago azul. Ainda sem conseguir processar a informação que os meus olhos viam, olhei em volta e a surpresa aumentava... havia outras casas iguais, todas elas eram exatamente iguais, eram imensas, todas elas situadas no cimo de um monte com vista para o lago azul que nos enchia a vista pelo horizonte fora. Nesse momento, tive a certeza de que aquele caminho que trilhei até aquela casa estava-me destinado e aquela casa foi preparada para mim.
No fundo da ravina verifiquei movimento, havia quem passeasse à beira do lago, outros estavam sentados na relva macia e fresca que coloria a ravina, outros olhavam o horizonte, e em todos eles podia-se vislumbrar uma tranquilidade serena de quem estava num lugar especial. Comecei a descer a ravina procurando fazê-lo na diagonal de modo a verificar se estava alguém na casa ao meu lado direito. Espreitei e verifiquei que era exatamente igual àquela que eu considerava minha, no alpendre estavam duas cadeiras e uma delas estava ocupada por um homem de barbas grisalhas, a fumar cachimbo, exalando um cheiro doce. Aproximei-me. O homem já havia dado por mim, mas esperou que fosse eu o primeiro a falar. Assim que cheguei à entrada do alpendre saudei-o:
-      Olá! – iniciei eu a conversa.
-      Olá! – respondeu o homem com um ligeiro sorriso na face.
-      Será que me pode ajudar? Sabe-me dizer se a casa aqui ao lado está ocupada?
-      Claro que posso. Aqui todos nos ajudamos uns aos outros. Aquela casa agora está ocupada.
-      Ah... Por alguma daquelas pessoas que estão lá em baixo, decerto. – atirei eu.
-      Não me parece. Aqui as casas são de quem as descobre, de quem consegue caminhar até elas, de quem as consegue encontrar.
-      O que quer dizer com isso?
-      Quero dizer que aquela casa é sua. – disse o homem, novamente com um sorriso nos lábios.
-      De facto, entrei há pouco tempo neste bosque. Fui caminhando e, quando dei por ela, tinha a casa à minha frente. Mas, quando entrei tudo no bosque era diferente. Entrei para a casa com uma envolvente e saí dela com outra completamente diferente. Como uma espécie de passagem.
-      Disse que está cá há pouco tempo? Isso não sei, aqui perdemos um pouco a noção do tempo. Mas, se confirma que a encontrou, então tenho razão, é sua. Seja bem-vindo.
-      Bem-vindo? Onde é que estamos? – perguntei eu.
-      Isso não é o mais importante. A verdadeira pergunta que deve fazer é se está bem. Sente-se em casa?
-      Realmente este lugar é bastante agradável, sente-se uma tranquilidade que nunca havia sentido anteriormente. Mas, desculpe a insistência, onde é que estamos?
-      Estamos em casa. Esta é a sua nova casa.
-      Em casa? Então, e a minha vida que deixei fora do bosque? Como é que podemos voltar para aquela entrada ladeada de duas enormes árvores seculares?
-      Quer voltar? Basta recorrer às lembranças que tem dentro de si.
-      Lembranças? E fisicamente? Confesso que estou um pouco perdido. – desabafei eu.
-      Não se preocupe, é para isso que eu estou aqui, e é para isso que vai estar aqui para um próximo vizinho seu. Mas, antes de explicar, faça-me companhia e sente-se neste cadeirão. – convidou o homem.
O homem antes de começar a falar voltou a acender o cachimbo, fazendo-me sinal para utilizar a manta que estava nas costas da cadeira.
-      Se olhar à sua volta verificará que estamos num local especial. Eu falo por mim, nunca havia visto uma paisagem tão bonita, nem nunca tinha sentido esta paz interior que nos enche a alma. Este é lugar é a nossa casa, sempre foi, nós é que temos primeiro uma passagem por outro lugar, até conseguirmos chegar à entrada das árvores seculares, como tão bem batizou. Uns conseguem encontra-la na primeira passagem, outros à segunda, e outros nas vezes que forem necessárias para que consigam ser chamados pelo bosque. O que eu quero dizer é que quem consegue chegar aqui, conseguiu atingir o seu propósito, e agora pode usufruir de todo este esplendor. Quando há pouco lhe disse que não sabia há quanto tempo estava aqui, foi porque na verdade, depois de entrarmos no bosque, há uma longa caminhada a cumprir, é uma espécie de purificação, e só depois de estarmos completamente preparados para esta fase é que conseguimos descortinar o nosso trilho, que por sua vez, vais dar acesso à nossa casa. E foi o que lhe aconteceu. Depois de encontrar a sua casa, terminou o seu processo de catarse e encontrou o lago, as restantes casas, e os seus companheiros do bosque.
-      E o que é que podemos fazer por aqui?
-      Tudo o que quisermos, quando quisermos e como quisermos. Se estamos aqui, tudo aquilo que fizermos não prejudicará ninguém. Vai ver que não faltará o que fazer.
-      E a minha família que eu deixei?
-      Se encontrou esta casa é porque a sua família está bem, e sabe que também está bem, onde quer que esteja.
-      Acho que já percebi.
-      Já percebeu há algum tempo, só precisava de uma confirmação, de uma voz amiga que o ouvisse, que o acolhesse e que lhe dissesse que está tudo bem.
-      Isso parece-me uma forma muito eufemística de me dizer que morri. – disse eu sem pensar.
-      Não, meu filho, não morreste. Apenas ganhaste direito ao descanso eterno.  

segunda-feira, novembro 30, 2015

Um Passo a Compasso

O parapeito da varanda estava frio e ligeiramente húmido. Tirei o maço do bolso do casaco de malha e coloquei um cigarro na boca. Apertei a roda do isqueiro e ouvi o barulho riscado da pedra a fazer faísca, e o lume surgiu. Coloco a ponta do cigarro no fogo e ouço as folhas secas do tabaco a começarem a arder. Dou a primeira passa, o fumo baila na minha boca, deixando uma sensação de secura dormente, e no fim puxo-o e travo-o na garganta. Ao meu lado tenho uma chávena de café, que vou bebericando, e no horizonte, desvenda-se um céu soalheiro que começa a ser coberto por nuvens cinzentas-escuras e espessas. As nuvens ordenam-se, como se cada uma delas soubesse exatamente o seu lugar. A cada passo, o céu outrora soalheiro, torna-se escuro e tristonho, mesmo que vagamente iluminado por raios de um sol tímido que penetram os espaços entre as nuvens se enchiam como nuvens de algodão doce.

As nuvens estavam colocadas como se fossem pinceladas por um artista renascentista, pareciam-se com uma fileira que estava a postos, mais à semelhança de uma orquestra, de iniciar a música, faltando apenas o sinal do maestro para que as nuvens tocassem a obra preparada. Foi ao longe que se ouviu o som forte e pesado de um trovão, e substituindo-se ao maestro, deu o mote de partida para que do céu caíssem as primeiras pingas, as primeiras notas vertidas numa cadência própria, iniciando-se a sinfonia do dia. As pingas grossas começam a salpicar o parapeito, deixando no ar o som cristalino das notas que melodiavam aquele início de tarde. Havia uma certa suavidade no tom e na forma quando se juntavam às restantes pingas, que numa metamorfose deixavam ser muitas e passavam a ser uma, apenas maior.

O som pingava a futuro, a cada passa que inalava, queimando o ar húmido que começava a instalar-se, as pingas chocavam na pedra granítica um tom agudo e airoso, o dó e o ré juntavam-se naquela poça de água que começava a alargar-se no parapeito, deixando-se escorrer por uma parede cálida e com fendas de histórias que se passaram a cada ano que passa. O cigarro está a chegar ao fim, apago-o no cinzeiro deixando a beata de pé; oiço a chuva a continuar a cair suavemente, orquestrada numa sinfonia própria de quem sabe que o destino está ali, mesmo ao nosso alcance, onde só temos que olhar em frente... com os olhos da esperança.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Ao Sabor do Vento

O vento soprava forte. Do céu emanava uma luz soalheira que alumiava aquele dia que se perdia a cada instante, a cada nuvem que emergia no céu azul-claro, pincelando-o com um cinzento mestiço, tornando-o pálido e escuro. As gaivotas há muito que partiram, sinalizando que a tempestade estava a chegar e deixando as nuvens espessas e húmidas, que ameaçavam uma precipitação forte, como protagonistas da tela.
A intempérie iniciou-se com suaves lufadas de ar quente que moviam as águas frias do mar, provocando um movimento mais intenso nas águas, até que a cada ronda que passava o mar agitava-se, emergiam timidamente as primeiras ondas destinadas a embater bruscamente nos rochedos banhados pela espuma branca da água salgada. Havia um certo compasso nas passagens, havia uma rebeldia desinteressada e selvagem na forma como o vento rasava as águas, outrora frias e vegetativas, tocando-lhes com uma carícia brusca e sem forma, deixando-as quentes e ansiosas por um desejo insaciável de viver, de sair da inércia e criar vida para além da vida.
O cenário vislumbrava toda a beleza da força da natureza, um vento forte e imponente, um mar inquieto com ondas enormes, um céu carregado de nuvens cinzentas, tudo peças de um cenário dantesco que transbordava uma simplicidade tão pura, tão natural como uma dança entre o ar e a água, entre o vento e o mar, com cortejos e conquistas, tudo parecia culminar na simbiose do bailar ao som da melodia da vida. À medida que o tempo ia passando, outros ventos e outras águas chegavam, e dançavam na pista que se tornava pequena naquela imensidão, moldando um movimento uníssono de harmonia e de energia.
Já não havia apenas ar e água, o que antes eram dois, agora unira-se num só corpo que se perdia na pista do céu, sem rumo, deixando-se levar por uma valsa dançada num voo sem destino. Ao som da nossa melodia que se ia intensificando, tornando tudo mais forte, mais energético, mais contagiante, enlaçando-os numa viagem que podia percorrer o mundo, sempre juntos, sempre fortes e sempre vivos.
Olhando para o corpo principal que se destacava no meio de todos os outros que chegavam e que completavam a imagem de um salão de baile a dançar uma valsa comemorativa de uma união, todo o cenário, todo o enredo, tudo era próprio de uma ópera que se iniciara com a apertura, deixando agora que o recitativo tomasse lugar, desconhecendo o que segregavam, a ária teve lugar apenas no pensamento dos protagonistas que, revolvendo-se numa força assoberbante, agitando tudo o que os rodeava, terminaram o ato num abraço eterno e fraterno ao farol.

sábado, setembro 26, 2015

Rosa Branca

            O Outono principia-se com uns chuviscos que timidamente se intrometem no ar soalheiro que nos escapa, hidratando-nos a alma da secura da efemeridade do verão. Olho em frente e continuo a percorrer o caminho tentando passar pelos pingos que caem cada vez mais grossos, tornando cada vez mais difícil calcorrear a estrada padronizada por uma calçada portuguesa gasta e pouco cuidada, rodeada de buracos cheios de um vazio a cheirar a terra húmida. Naquela vista, o trilho vislumbra-se como um puzzle enorme, com peças que se perderam ao longo do tempo. Neste trajeto tortuoso que procuro cumprir sem cair, encontro-te… foi com a candura da tua existência que deixei de correr e parei, tentavas preencher um desses espaços. Olhei em volta e não descortinei outra igual a ti; cheguei-me mais próximo e deixei-me deslumbrar com as tuas pétalas espessas, com uma leve penugem, provocando-me um desejo incontrolável de as acariciar e sentir o aveludado singelo, sentindo a cada toque, a cada carícia que o meu corpo estava a ser protegido dos pingos que continuam a cair.
            A chuva miudinha abençoa este dia que marca o início da nova estação, os pingos já não me incomodam e já não tenho pressa para percorrer esta estrada, ela está parada e eu posso continuar mais tarde. Sento-me no chão calcetado por pedras frias e húmidas, cruzo as pernas à chinês como uma criança e com as mãos a segurar-me o queixo contemplo-te, observando cuidadosamente a tua pureza, desde a forma como frondesceste do meio das pedras que calcam esta terra húmida esquecida, envergando um corpo verde-vivo, culminando na brancura na forma de coração que alumia este pedaço do caminho que outrora esteve preso em liberdade na escuridão que a luta pelo esquecimento nos provoca.
            Não corria nem uma pequena brisa, não obstante os pingos que caiam numa cadência inerte e mecânica. A contemplação de uma flor só por si não seria estranha se não estivesse sentado à chuva numa calçada molhada e fria, no entanto, todo este cenário faz-me mais sentido a cada instante que passa. Este lugar parece-me importante para ti, podias ter brotado em qualquer um dos muitos outros lugares vazios que preenchem este percurso, mas não o fizeste; podias ter escolhido permanecer escondida, mas deste-te a ser sentida. Não sei se me procuraste, ou se fui eu que te encontrei, importa agora que estou aqui sentado a olhar para ti, a sentir-te, a sentir a tua pulsação que, como um coração, bate forte, cresce e volta à sua posição natural, e neste ciclo de pulsações atrás de pulsações sinto um espaço esquecido no meu coração a acordar. A cada batida do teu crescimento, sinto o espaço de terra castanho-escuro do meu coração a desabrochar uma rosa branca que alumia o meu amor por ti.
Levantei-me e continuo a percorrer este trilho, agora com um sorriso nos lábios, imaginando que todos aqueles lugares vazios e esquecidos no tempo podem ser lembrados a cada momento por singelas rosas brancas.

terça-feira, setembro 22, 2015

Hoje, Vi-te e Senti-te Outra Vez

Por vezes tenho uma sensação estranha que os dias passam sem lhes darmos o verdadeiro valor, passando por eles sem sequer os sentirmos. Levantamo-nos, vamos trabalhar, voltamos para casa e só queremos deixar de pensar, nem que seja por um minuto... só um minuto, para recuperar as forças de um dia que passou sem que déssemos por ele, esquecendo-nos de abraçar a vida que nos foge pelos dedos.
Felizmente nem todos os dias são assim, há aqueles em que vivemos pequenas coisas que nos fazem perceber que estamos mais ricos, pois temos mais um dia na nossa contabilidade. Hoje, foi um desses dias, senti-o a entrar no património dos meus dias, dos dias que são só meus, dos dias que dedico à minha vida, que cada vez mais controlo menos. Hoje, eu vi-te e senti-te outra vez.
De mão dada a um rapazote de cabelo castanho-escuro com ar de traquina, passeavas pelo centro comercial deixando no ar o aroma doce e frutado do teu perfume. Delicadamente explicavas algo ao reguila, que queria entrar na loja dos brinquedos, com a meiguice que te era particular, segredando-lhe palavras cuidadas que o acalmava. Depois dessa vitória, procuravas com o olhar uma zona dos fumadores – nunca te vi a procurar uma zona de fumadores, não existia na altura esta questão. Imaginei que quisesses dar uma passa bem forte num SG Gigante e depois dedicasses o tempo em que o cigarro ardesse, sozinho e lentamente, a arranjar as fraldas da camisa do reguila que teimavam em sair das calças, penteavas-lhe o cabelo e certificavas-te de que estava perfeito, e só aí seguirias caminho sem olhar novamente para a beata que, entretanto, se apagara.
Ao ver-te, abriu-se a janela da saudade, abriu-se novamente a ferida que tarda em sarar, queria ter ido ter contigo, mas preferi observar-te de longe onde estávamos os dois de mão dada a passear algures, mas, quando dei conta, senti-te outra vez, e mais uma vez, de um momento para o outro, sem que estivesse preparado, senti-te a fugires-me do olhar, do pensamento, permanecendo a dor de quem ama.
Fiquei sentado no banco a lembrar-me que faz tempo demais que partiste sem aviso. A vida segue o seu ritmo, como um comboio em andamento, e nós temos que o apanhar para não ficarmos perdidos no espaço vazio da saudade. A tua ausência deixa em aberto um espaço de felicidade que me estava destinada – não fosse ela resultado de momentos, felizes ou infelizes, que vivemos ao longo da vida.
Insensatamente, liguei o telemóvel e olhei uma fotografia tua, estavas diferente, os anos haviam passado por ti, tentavas esboçar um sorriso, mas quem te conhecesse, percebia facilmente “que chegavas a fingir que é dor, a dor que deveras sentias”.
Não consegui processar a imagem daquele instante durante largos minutos perdi a noção do tempo, até que ao ver-me novamente de mão dada contigo a minha face forçou um sorriso involuntário, tu estavas bem e feliz, como outrora também o foste, e eu vivi mais um momento.
Voltei ao trabalho, depois para casa e vivi o resto de um dia que contou. Os dias só contam quando marcam um traço de felicidade no caderno das contas, todos os outros servem de passagem de uma vida que não controlamos.
Hoje, vivi de forma completa, porque tornei a amar-te, mesmo que tenha doído.

sábado, setembro 12, 2015

O Tempo Que Não Compreendi

No horizonte, o mar traça uma linha horizontal perfeita e longínqua, um cordel balizado por uma distância que num olhar perdido na imensidão do azul-escuro que nos envolve, convencendo-nos que conseguimos ver nesse ponto o lugar onde o mundo dá a volta para retornar até nós.
            Sentado nas rochas frias e húmidas banhadas pelas águas salgadas do oceano, não consigo deixar de focar o meu olhar naquele fio, olho de uma ponta a outra descobrindo que a sua infinidade é desconcertante, tanto na distância entre nós, como na distância entre os pontos invisíveis que limitam aquele lugar. O brilho dos meus olhos fica cada vez mais húmido, há um lacrimejar salgado e espesso que banha o meu olhar, obrigando-me a torná-lo cada vez mais focalizado no horizonte que me acena com uma espécie de imagens refletidas na água que bailam num compasso sereno e tranquilizante. Não consigo vislumbrar com nitidez que imagens estão a ser refletidas, apenas consigo perceber que cada uma tem um impacto diferente em mim. Continuo sentado nestas rochas, mas já não as sinto frias nem húmidas, o meu corpo ficou rígido e inerte, à distância não se vislumbra nenhuma alteração, posso afiançar isso, porque estou a olhar para ele dentro desta água fria e relaxante que me absorveu.
            À medida que me afasto daquelas rochas ásperas e agrestes, as imagens que surgem como aparições começam a ficar mais nítidas e delineadas, ainda que não as consiga distinguir, todas elas surtem em efeito distinto em mim, cada vez mais forte, como se agora a nossa ligação estivesse mais próxima, agora que eu sou azul-escuro, húmido e frio. Já não vejo o meu corpo, estou no meio do oceano rodeado de nada, apenas com aquela linha no horizonte a guiar-me, e por mais que me aproxime a distância mantém-se, valendo-me apenas a sensação de fazer parte daquele reflexo, a sensação de me conseguir configurar naquelas imagens, como que se as pudesse desenhar em sintonia com as que figuram no meu pensamento.
            Continuo a navegar, agora com o objetivo de sentir as imagens que produzo com o meu pensamento, mas, à medida que as imagens ficam mais nítidas, percebo que as imagens que se refletem naquelas águas embora sejam minhas, embora sejam passagens do meu subconsciente, não são controladas por mim. Surgem numa cadência rápida e fugaz, por vezes o sentimento que provocam é apenas um sopro no coração, uma leve pancada na alma que não viu e sentiu aquele momento; outras vezes é mais demorado, diluindo a intensidade pelo tempo da sua passagem. Não obstante a ondulação constante das águas, sinto-me paralisado, olho em volta e só vejo um azul-escuro longo e imponente, coberto de imagens espalhadas ao meu redor, mas já não lhes consigo tocar.
A água chega até aos meus pés, embora esteja fria, sinto o conforto da intimidade, tenho a sensação que as pedras se moldaram ao meu corpo, para poder continuar a olhar para aquele ponto onde à distância parece que o mundo dá a volta e retorna para nós, para aquele lugar onde o tempo passa e leva com ele momentos que não fomos capazes de os sentir e compreender.

sexta-feira, setembro 04, 2015

A Estação


O dia começa timidamente a clarear com uns raios de sol que rasgam as nuvens provocando a orvalhada matinal que dança com preguiça no ar, disseminando um sabor húmido e frio. O som metálico solfejado pela máquina que se desloca para a linha, onde jazerá à espera daqueles que se preparam para partir. O relógio redondo, de fundo branco e ponteiros negros e esguios, marca as cinco da manhã. Por enquanto ainda não há viajantes, apenas os preparativos da máquina que se alinha, para que, à hora certa, o seu sinal sonoro desperte a partida.

O sinal sonoro ainda não arrebatou esta inércia matinal, mas já não estamos sozinhos, nunca estivemos sozinhos embora o silêncio impere entre nós faz uns dias. Ainda não consegui digerir que vou ficar sozinha durante uns tempos, nesta terra onde o diabo perdeu as botas, quando tu me podias levar contigo. “Porque vais? Porque não me levas contigo? Podia fazer umas compras, ou visitar a minha prima?”, pergunto-lhe eu numa réstia de esperança para que compre mais um bilhete. Não trouxe bagagem, mas não me importava de lavar todos os dias esta mesma roupa, só para estar perto de ti, mas tu não entendes, não entendes que vou ficar em casa fechada, porque não é de bom tom uma senhora casada sair à rua sozinha. “Não me respondes? Pelo menos não partas a ignorar as minhas perguntas!”, desafio a responder o que já me respondeu e eu não quis entender. O seu olhar concentrado no horizonte da linha, apenas desviado para o seu relógio de bolso de cinco em cinco minutos desconcerta-me, mas não posso fazer uma cena no meio da estação. “Ficarás bem, aproveita para ler e reestabelecer os laços com as senhoras da sociedade.”, disse-me num tom pausado e assertivo. “Por muito que te responda, não queres entender que não vou porque quero, vou porque tenho de ir, ponto!”, e com o “ponto” quis dar por encerrado o assunto que eu ainda queria reabrir, mas não o podia, em abono da verdade, eu sabia que era assim, que ia em benefício dos dois e pelo nosso futuro. O sinal sonoro fez-se soar e salvou o embaraço daquele silêncio. “Desculpa, viaja em segurança e que tudo corra bem. Volta depressa...”, disse-lhe enquanto limpava uma lágrima que teimava em balançar na bolsa dos meus olhos. Esperei que o comboio arrancasse, deixando para trás uma nuvem de pó e cheiro a carvão queimado, mas sentindo os seus lábios na minha cara, e imagem do nosso olhar complementado com um sorriso só nosso.

O relógio marca as dez da noite e o altifalante avisa-nos que estão a chegar dois comboios, um intercidades e um alfa pendular. A azáfama começa a emergir com os comboios a parar e as pessoas a saírem, quase todas com o telemóvel na mão, com as malas de computadores a tiracolo, e quase todas sem ninguém à sua espera. No final da fila das pessoas que se atropelam para chegar mais rápido aos táxis, ou a nada, vem um senhor, de fato escuro, com uma mala de couro, que calmamente se dirige à porta da estação e beija na bochecha a cara de uma senhora e lhe sorri.