sexta-feira, setembro 04, 2015

A Estação


O dia começa timidamente a clarear com uns raios de sol que rasgam as nuvens provocando a orvalhada matinal que dança com preguiça no ar, disseminando um sabor húmido e frio. O som metálico solfejado pela máquina que se desloca para a linha, onde jazerá à espera daqueles que se preparam para partir. O relógio redondo, de fundo branco e ponteiros negros e esguios, marca as cinco da manhã. Por enquanto ainda não há viajantes, apenas os preparativos da máquina que se alinha, para que, à hora certa, o seu sinal sonoro desperte a partida.

O sinal sonoro ainda não arrebatou esta inércia matinal, mas já não estamos sozinhos, nunca estivemos sozinhos embora o silêncio impere entre nós faz uns dias. Ainda não consegui digerir que vou ficar sozinha durante uns tempos, nesta terra onde o diabo perdeu as botas, quando tu me podias levar contigo. “Porque vais? Porque não me levas contigo? Podia fazer umas compras, ou visitar a minha prima?”, pergunto-lhe eu numa réstia de esperança para que compre mais um bilhete. Não trouxe bagagem, mas não me importava de lavar todos os dias esta mesma roupa, só para estar perto de ti, mas tu não entendes, não entendes que vou ficar em casa fechada, porque não é de bom tom uma senhora casada sair à rua sozinha. “Não me respondes? Pelo menos não partas a ignorar as minhas perguntas!”, desafio a responder o que já me respondeu e eu não quis entender. O seu olhar concentrado no horizonte da linha, apenas desviado para o seu relógio de bolso de cinco em cinco minutos desconcerta-me, mas não posso fazer uma cena no meio da estação. “Ficarás bem, aproveita para ler e reestabelecer os laços com as senhoras da sociedade.”, disse-me num tom pausado e assertivo. “Por muito que te responda, não queres entender que não vou porque quero, vou porque tenho de ir, ponto!”, e com o “ponto” quis dar por encerrado o assunto que eu ainda queria reabrir, mas não o podia, em abono da verdade, eu sabia que era assim, que ia em benefício dos dois e pelo nosso futuro. O sinal sonoro fez-se soar e salvou o embaraço daquele silêncio. “Desculpa, viaja em segurança e que tudo corra bem. Volta depressa...”, disse-lhe enquanto limpava uma lágrima que teimava em balançar na bolsa dos meus olhos. Esperei que o comboio arrancasse, deixando para trás uma nuvem de pó e cheiro a carvão queimado, mas sentindo os seus lábios na minha cara, e imagem do nosso olhar complementado com um sorriso só nosso.

O relógio marca as dez da noite e o altifalante avisa-nos que estão a chegar dois comboios, um intercidades e um alfa pendular. A azáfama começa a emergir com os comboios a parar e as pessoas a saírem, quase todas com o telemóvel na mão, com as malas de computadores a tiracolo, e quase todas sem ninguém à sua espera. No final da fila das pessoas que se atropelam para chegar mais rápido aos táxis, ou a nada, vem um senhor, de fato escuro, com uma mala de couro, que calmamente se dirige à porta da estação e beija na bochecha a cara de uma senhora e lhe sorri.

domingo, janeiro 11, 2015

Um Minuto de Saudade

O ponteiro dos segundos rasgou o silêncio oco que pairava no repouso do esquecimento vegetativo que mantemos na ociosidade do conforto do quotidiano. O ponteiro arrancou e parou pesadamente na casa do segundo seguinte, acertando com o segundo movimento o passo e a intensidade, do que viria a ser uma longa e solitária viagem a um tempo adormecido na inquietude da saudade.

A jornada ainda não atingia o primeiro marcador e eu já está a chegar até ti, consegui ver-te sentada no sofá à minha espera, de um momento para o outro fui capaz de sentir a suavidade da tua bochecha macia nos meus lábios, sentir o aroma ao perfume floral e frutado que espalhavas pela sala adocicando o ar que respirávamos, e por fim, cheguei mesmo a ouvir o som crescente do teu sorriso fugido. Tudo isto se passou num espaço de segundos que não controlei, a forma arrebatadora como viajei até ti lembrou a explosão de uma garrafa gasificada, e, naquele momento, sem olhar para o relgo e tu comigo. Uma janela abrirara o relia ter-te aqui outra vez, imaginar-te no meu novo mundo. sem pressaado fosse r mais umaógio, quis apenas perdurar cada momento o mais que me fosse possível, deixando-me levar pela impotência do desejo. Tudo parecia perfeito, eu estava outra vez contigo e tu comigo. Uma janela abrira-se com o despertar do tempo e nós ultrapassáramos a barreira do da distância, deixamos que a saudade vivesse por um minuto sem rédeas, sem prisões, sem as restrições egoístas que colocamos para nos protegermos, permitimos-lhe que se soltasse e desse voz a um sentimento que só ela consegue despertar...o amor verdadeiro de quem ama.

A cada instante desejei que o tempo se medisse em milésimos de segundo, numa tentativa infrutífera de ter mais tempo para poder estar contigo, no entanto, a pouco e pouco, com a abertura da caixa das lembranças perdidas guardadas no fundo da memória, a par dessa alegria do reencontro crescia também a dor, a dor que nos baixa ao solo e nos lembra da inevitabilidade, da dura realidade que se aproxima a cada casa de segundo que passava. Já não havia volta, eu abrira a porta do meu coração deixando todos os sentimentos que reprimia para me proteger viverem mais uma vez, sabia que seria uma vivência agridoce, mas havia que aproveitar e sentir o teu amor incondicional a aconchegar-me, imaginar como seria ter-te aqui outra vez, imaginar-te no meu novo mundo.

A viagem à saudade tornara-se dolorosamente insuportável, eu conseguira chegar até ti, deixei que a saudade tomasse conta de mim até ao limite das minhas forças, e foi quase no limite da incapacidade de respirar o ar denso do mundo da saudade, que deixei escapar um sorriso, deixando que as lágrimas salgadas escorressem pela minha cara lembrando-me que só não se esquece quem é capaz de amar num minuto de saudade.

domingo, dezembro 07, 2014

Na Sombra Fria da Lareira

A sala é invadida pela luz taciturna que irrompe por entre os pequenos quadrados de vidro que decoram as janelas emolduradas pela madeira gasta pelo tempo, lembrando-nos o frio que jaz sobre as camadas de ar que respiramos, em contraste com o crepitar dos troncos que, teimosamente, bailam por entre as chamas da lareira, troteando um som singular, característico dos pedaços de madeira nobres que vivem os seus últimos instantes fingindo o destino, projetando labaredas para o ar e, de quando em quando, soltando um pipocar forte e seco, prendendo a atenção de que quem assiste aquele glamour apoteótico da força de um final que se consegue quente e reconfortante. Com uma regularidade sem par, quando a harmonia começa a pairar sobre o ambiente e a resignação, o fogo que jaz na lareira renasce para um último ato, marcando a sua presença, o seu cunho, preenchendo a sala com um ar quente e com um ligeiro sabor a queimado, quebrando o silêncio da conversa dos nossos olhares que se fitam à medida que o dia avança, com um som ritmado e acolhedor.

Há muito que os meus olhos já não se prendem no televisor que vocifera um vazio de interesse, há muito que os meus olhos se prendem naquele bailado que me atrai com uma simples chama de calor, imanada por uma simples lareira, que não se resigna a perder a força distinta de quem sabe chegar ao fim. A cada passo, levanto-me para procurar cuidadosamente no meio da lenha, um tronco grosso e maciço, um tronco que seja digno para alimentar aquele fulgor, aquela necessidade de manter acesa aquela luz quente, um tronco que faça perdurar aquela chama que através do seu esplendor se transforma numa espécie de voz, com frases soltas por entre o brilho que contorna o fogo que se ondula por entre a madeira que rejubila com estalares estridentes e serenos.

O céu começa a deixar cair um negrume húmido, escurecendo a luz natural de mais um dia de inverno. O dia avança, a luz taciturna que cobre os céus desce sobre a terra, passando paulatinamente o testemunho à noite. A lareira mantém-se acesa, com mais ou menos fulgor, dependente dos pedaços de madeira densos e robustos, cada um deles entregues a si próprio, representando o seu último ato com a nobreza de quem nada teme. Sentado na poltrona, fixo-me naquele emaranhar se luz alaranjada com rasgos azuis, que permanecem sincronizados numa dança hipnotizante. Olho para a lareira e vejo-me no sofá, parado, de chávena de chá na mão, com a manta nas pernas, deixando o tempo correr. As chamas crescem, ganham um corpo denso e vigoroso, as minhas pernas ficam quentes, os meus braços acompanham o sincronismo daquela dança alaranjada, olho-a e vejo-me a fitar-te, desafiando-te para mais uma dança, não sei se será a última, isso já pouco importa, a temperatura que me invade precisa que dancemos como só alguns o sabem fazer, aquecendo a sombra fria da lareira.


terça-feira, dezembro 02, 2014

O Barco Que Sonha

UMA FOTO, UMA LEITURA

                                 Fotografia: António Tedim (http:\\antoniotedim.blogspot.com)
                                 Texto: Rui Santos (http:\\cognitare.blogspot.com)
 
 
O sabor húmido da orvalhada chegou até mim, sentia-a muito antes de me tocar, caminhou até mim com serenidade, cobrindo suavemente cada parte deste meu corpo indolente com gotas de água flácidas e leves. A cada manhã espero que o inevitável não aconteça, espero que as minhas saudades se dissipem com o vento que me limpa, imaginando-me novamente a deslizar nestas águas frescas e fraternas que me cercam num abraço protetor, nestas águas que ignoram a minha inércia e evitam, dia após dia, que esta carcaça esquecida se afogue. O cheiro da matina acorda-me o sonho de voltar a vaguear neste manto líquido com o fulgor de quem renasce do abandono.

            Os braços esguios, longos e macios que espreitam na superfície da água afagam timidamente o fundo do meu casco, chego mesmo a ter a sensação que o fazem quase a medo. Deixo que percebam que estou exposto, que lhes tenho a confiança necessária para que me sinta confortável com o toque quente e humente que se vai apoderando, desde a proa até à popa. Não nego que há uma inquietação que vai crescendo em mim, uma espécie de curiosidade com uma pitada de medo. As carícias iniciais começam a tomar conta do casco, as ramagens finas que me envolvem começam a tornar-se um corpo só, um corpo mais forte e denso, limpando o musgo que já fazia parte de mim.

            Hoje há um toque mais intenso das águas que emergem até mim. Na matina as águas costumam passear-se pelo meu casco numa rotina de reconhecimento do território, muitas vezes procurei dizer presente, mas a palavra pareceu-me sempre excessiva e optei sempre por não dizer nada, para evitar ter de dizer...esquecido. As batidas das águas tornaram-se mais fortes, sem nunca serem bruscas, apenas o suficiente para me agitarem. A inquietação que se iniciou há pouco começa a ganhar outra intensidade, começo a sentir que algo se vai passar e não consigo vislumbrar o quê. A ramagem que me limpa, acaricia e envolve-me; as águas embatem contra mim como quem lava a cara pela manhã; algo se passa, todos sabem menos eu, menos este pequeno barco perdido na imensidão desta lagoa.

            O interior do meu corpo sente o calor do sol que se abre para mais um dia, seca a humidade do orvalho, deixando os bancos e os remos mais confortáveis para quem quiser trilhar comigo estes caminhos à procura de serem desbravados. Os minutos perdem-se pelo dia e não aparece ninguém a reclamar um barco perdido e esquecido nestas águas que convidam a um passeio. O meu casco está limpo, a minha cara foi lavada, o meu interior está seco e as águas convidam-me a navegar sobre elas, e eu, continuo inerte neste recanto, desmemoriado da história e da vida.

            Com a resignação habitual, a minha inquietação começou a acalmar, a ramagem que me envolvia largou-me com impulso, ainda que continue a sentir as suas carícias, as águas doces e delicadas envolvem-me numa ondulação que me afasta e, de repente, dou por mim a deslizar pela lagoa que se recusou a esquecer-me, fazendo de mim novamente um barco que sonha.


A Menina de Nariz Rosado

Nota de Autor: Este pequeno conto foi escrito a pedido da minha filha há 3 anos. Na altura, quando me sugeriu o Título, eu não sabia como po...