A sala é invadida pela luz taciturna que irrompe
por entre os pequenos quadrados de vidro que decoram as janelas emolduradas
pela madeira gasta pelo tempo, lembrando-nos o frio que jaz sobre as camadas de
ar que respiramos, em contraste com o crepitar dos troncos que, teimosamente,
bailam por entre as chamas da lareira, troteando um som singular,
característico dos pedaços de madeira nobres que vivem os seus últimos
instantes fingindo o destino, projetando labaredas para o ar e, de quando em
quando, soltando um pipocar forte e seco, prendendo a atenção de que quem
assiste aquele glamour apoteótico da força de um final que se consegue quente e
reconfortante. Com uma regularidade sem par, quando a harmonia começa a pairar
sobre o ambiente e a resignação, o fogo que jaz na lareira renasce para um
último ato, marcando a sua presença, o seu cunho, preenchendo a sala com um ar
quente e com um ligeiro sabor a queimado, quebrando o silêncio da conversa dos
nossos olhares que se fitam à medida que o dia avança, com um som ritmado e
acolhedor.
Há muito que os meus olhos já não se prendem no
televisor que vocifera um vazio de interesse, há muito que os meus olhos se
prendem naquele bailado que me atrai com uma simples chama de calor, imanada
por uma simples lareira, que não se resigna a perder a força distinta de quem
sabe chegar ao fim. A cada passo, levanto-me para procurar cuidadosamente no
meio da lenha, um tronco grosso e maciço, um tronco que seja digno para
alimentar aquele fulgor, aquela necessidade de manter acesa aquela luz quente,
um tronco que faça perdurar aquela chama que através do seu esplendor se
transforma numa espécie de voz, com frases soltas por entre o brilho que
contorna o fogo que se ondula por entre a madeira que rejubila com estalares
estridentes e serenos.
O céu começa a deixar cair um negrume húmido,
escurecendo a luz natural de mais um dia de inverno. O dia avança, a luz
taciturna que cobre os céus desce sobre a terra, passando paulatinamente o
testemunho à noite. A lareira mantém-se acesa, com mais ou menos fulgor,
dependente dos pedaços de madeira densos e robustos, cada um deles entregues a
si próprio, representando o seu último ato com a nobreza de quem nada teme.
Sentado na poltrona, fixo-me naquele emaranhar se luz alaranjada com rasgos
azuis, que permanecem sincronizados numa dança hipnotizante. Olho para a
lareira e vejo-me no sofá, parado, de chávena de chá na mão, com a manta nas
pernas, deixando o tempo correr. As chamas crescem, ganham um corpo denso e
vigoroso, as minhas pernas ficam quentes, os meus braços acompanham o
sincronismo daquela dança alaranjada, olho-a e vejo-me a fitar-te,
desafiando-te para mais uma dança, não sei se será a última, isso já pouco
importa, a temperatura que me invade precisa que dancemos como só alguns o
sabem fazer, aquecendo a sombra fria da lareira.