terça-feira, março 01, 2016

O Bosque


O BOSQUE
As portas do bosque abriam-se por entre duas enormes árvores que ladeavam o arvoredo verde vivo e fresco que pintava aquele cenário idílico onde o som do silêncio reinava. As árvores eram enormes, delas emanavam troncos largos e escuros, que se ramificavam até bem alto, sempre cobertos por umas folhas nunca antes vistas – além de terem uma forma que abraçavam os espaços vazios entre os ramos, eram coloridas com um verde singular, daquelas cores que parecem terem sido testadas várias vezes numa palete, até atingirem o ponto da perfeição.
Deparado frente à imponência daquela imagem, olhei em volta e não consegui vislumbrar viva alma a quem perguntar onde estava. Ali estava eu, sozinho, entre as duas árvores que se destacavam das restantes, quer pela sua imponência, quer pelo facto de formarem uma espécie de porta de entrada, daquelas que vemos nos antigos castelos. Os seus diâmetros deveriam ter mais de um metro, em altura não consigo sequer alvitrar um número, apenas sou capaz de dizer que as árvores, embora imponentes, tinham um aspeto vívido e de grande leveza, que convidavam singelamente a passar pelo meio delas. Lentamente aproximei-me, pisando as folhas húmidas, ligeiramente almofadadas, que cobriam o chão, traçando um caminho como um tapete que nos conduzia, ora cobertas por um castanho-avermelhado, ora cobertas por folhas verdes acabadas de cair. Fui entrando, percorrendo lentamente o traçado que me conduzia, sempre com um olhar para trás à procura da entrada que ia perdendo tranquilamente de vista. Não andei muitos metros para perceber que não estava num bosque qualquer, tudo nele era diferente, nem sequer consigo afirmar que se tratava de um bosque, apenas posso afirmar que aquele lugar estava rodeado de árvores com folhas especiais, uma terra escura e acolhedoramente húmida, e que estava envolto por um silêncio simpático e reconfortante que me purificava a cada passada, de tal forma que quando me lembrei de olhar para trás, para ver a entrada, apenas consegui descortinar um manto verde no seu lugar.
Continuei a minha caminhada pelo trilho que me dirigia, sempre pautado por um ansiado aumento de uma paz interior, percorria o caminho na esperança de ver viva-alma, na procura incessante de encontrar alguém no meio daquele lugar que se caracterizava cada vez mais como um lugar especial, onde só havia lugar para o bem-estar, para o conforto e tranquilidade. Não consigo precisar quantos minutos andei por entre aquele ar puro exalado pelas árvores, mas foi durante algum tempo, já nem conseguia vislumbrar o início da caminhada, até que cheguei a um ponto onde se cruzavam vários trilhos, podia escolher vários caminhos para continuar, todos eles eram idênticos, uns à direita, outros à esquerda, mas todos eles tinham o mesmo aspeto, as mesmas árvores, o mesmo chão, não havia nada que me pudesse fazer escolher entre os caminhos que se defrontavam diante de mim. Decidi seguir em frente, e à medida que me adiantava no caminho perdia de vista os caminhos laterais, a densidade das árvores cobriam qualquer possibilidade de espreitar como teria sido a opção por qualquer uma das outras vias. Andei calmamente, e sempre tranquilo, não obstante estar num local desconhecido e sem saber como regressar, caminhei compassadamente, não havia lugar para o cansaço tamanha era a beleza daquele lugar. Continuei, cada vez que dava uma passada crescia em mim uma tranquilidade como se pertencesse àquele lugar desde sempre. A meio do caminho consegui ver uma pequena abertura lateral, uma espécie de ramificação do itinerário principal. Espreitei e afastei os ramos que frondesciam desde o chão, e constatei que era uma passagem para um carreiro secundário. Decidi-me continuar no caminho principal, havia algo que me chamava a continuar o meu trajeto inicial. Sempre fascinado por tudo que me rodeava, ia paulatinamente deixando para trás todos os meus receios e tudo aquilo que me preocupava, aquela jornada estava a transformar-se numa catarse das minhas inquietações e de tudo aquilo que me pesava da alma. Passei novamente por veredas secundárias, ora apareciam à esquerda, como à direita, e em todas elas senti a mesma necessidade de continuar a caminhar pelo aquele chão que acolhia as minhas passadas com a delicadeza de quem nos afaga. Continuo sem conseguir precisar o tempo que passou, ou a distância que passou, mas foi depois de várias oportunidades de me desviar do caminho principal que me defrontei com uma brecha para um carreio secundário que me atraiu a atenção.
Comecei por afastar os ramos que frondesciam, era um caminho ligeiramente diferente dos anteriores, os ramos estavam a começar a crescer, o chão pareciam imaculadamente puro e por estrear, as árvores não me pareciam tão altas, mas tudo o resto era igual, apenas ficava a sensação que, embora a semelhança, tudo estava no início. Aventurei-me e comecei a percorrer aquele trilho, e à medida que o explorava, sentia que aquele lugar me pertencia, que havia sido desenhado para mim, tudo nele me preenchia e me realizava. No final da primeira passagem do atalho vislumbrei uma escada natural que me direcionava para uma casa de madeira, uma espécie de bungalow com um alpendre frontal. Aproximei-me e verifiquei que era mesmo uma casa, estava desocupada, mas pronta a habitar. Do seu interior conseguia-se ouvir uma melodia, não era nenhuma sinfonia, ou concerto, isso consegui descortinar, era apenas um som que proliferando pelas janelas um tom uníssono, natural e calmo, harmonizava aquele lugar. Havia luz, de fora não me parecia que fosse luz elétrica, a aluminação era quente e titubeante, transmitindo um cenário acolhedor. Quando cheguei mais perto consegui confirmar que a casa estava desocupada. Decidi bater, e na ausência de não ouvir qualquer resposta, decidi entrar. O interior era como eu imaginava, uma casa de madeira, simples, apenas com o que era essencial, cadeiras, uma mesa, uma lareira, um cadeirão, uma cama e algumas velas que combatiam a escuridão. Numa primeira impressão não descortinei mais nada e tudo me parecia magnífico. A casa era pequena, mas suficientemente para as minhas necessidades. Já sentia a casa como minha, dei por mim a sentir que tinha sido preparada para a minha chegada, até que me passou pela cabeça que podia estar preparada para outra pessoa, pelo que, decidi voltar a sair e procurar por alguém. Quando saí da porta principal, fiquei paralisado... tudo estava diferente.
Para começar, o alpendre frontal estava preenchido com dois cadeirões, com umas mantas nas suas costas, que baloiçavam ao sabor do vento. A paisagem que rodeava a casa deixou de estar pintada de arbustos daquele verde singular e de árvores enormes. A casa encontrava-se agora alteada no cimo de um monte, e do alpendre vislumbrava-se uma vista celestial, finalizada lá no final da ravina com um enorme lago azul. Ainda sem conseguir processar a informação que os meus olhos viam, olhei em volta e a surpresa aumentava... havia outras casas iguais, todas elas eram exatamente iguais, eram imensas, todas elas situadas no cimo de um monte com vista para o lago azul que nos enchia a vista pelo horizonte fora. Nesse momento, tive a certeza de que aquele caminho que trilhei até aquela casa estava-me destinado e aquela casa foi preparada para mim.
No fundo da ravina verifiquei movimento, havia quem passeasse à beira do lago, outros estavam sentados na relva macia e fresca que coloria a ravina, outros olhavam o horizonte, e em todos eles podia-se vislumbrar uma tranquilidade serena de quem estava num lugar especial. Comecei a descer a ravina procurando fazê-lo na diagonal de modo a verificar se estava alguém na casa ao meu lado direito. Espreitei e verifiquei que era exatamente igual àquela que eu considerava minha, no alpendre estavam duas cadeiras e uma delas estava ocupada por um homem de barbas grisalhas, a fumar cachimbo, exalando um cheiro doce. Aproximei-me. O homem já havia dado por mim, mas esperou que fosse eu o primeiro a falar. Assim que cheguei à entrada do alpendre saudei-o:
-      Olá! – iniciei eu a conversa.
-      Olá! – respondeu o homem com um ligeiro sorriso na face.
-      Será que me pode ajudar? Sabe-me dizer se a casa aqui ao lado está ocupada?
-      Claro que posso. Aqui todos nos ajudamos uns aos outros. Aquela casa agora está ocupada.
-      Ah... Por alguma daquelas pessoas que estão lá em baixo, decerto. – atirei eu.
-      Não me parece. Aqui as casas são de quem as descobre, de quem consegue caminhar até elas, de quem as consegue encontrar.
-      O que quer dizer com isso?
-      Quero dizer que aquela casa é sua. – disse o homem, novamente com um sorriso nos lábios.
-      De facto, entrei há pouco tempo neste bosque. Fui caminhando e, quando dei por ela, tinha a casa à minha frente. Mas, quando entrei tudo no bosque era diferente. Entrei para a casa com uma envolvente e saí dela com outra completamente diferente. Como uma espécie de passagem.
-      Disse que está cá há pouco tempo? Isso não sei, aqui perdemos um pouco a noção do tempo. Mas, se confirma que a encontrou, então tenho razão, é sua. Seja bem-vindo.
-      Bem-vindo? Onde é que estamos? – perguntei eu.
-      Isso não é o mais importante. A verdadeira pergunta que deve fazer é se está bem. Sente-se em casa?
-      Realmente este lugar é bastante agradável, sente-se uma tranquilidade que nunca havia sentido anteriormente. Mas, desculpe a insistência, onde é que estamos?
-      Estamos em casa. Esta é a sua nova casa.
-      Em casa? Então, e a minha vida que deixei fora do bosque? Como é que podemos voltar para aquela entrada ladeada de duas enormes árvores seculares?
-      Quer voltar? Basta recorrer às lembranças que tem dentro de si.
-      Lembranças? E fisicamente? Confesso que estou um pouco perdido. – desabafei eu.
-      Não se preocupe, é para isso que eu estou aqui, e é para isso que vai estar aqui para um próximo vizinho seu. Mas, antes de explicar, faça-me companhia e sente-se neste cadeirão. – convidou o homem.
O homem antes de começar a falar voltou a acender o cachimbo, fazendo-me sinal para utilizar a manta que estava nas costas da cadeira.
-      Se olhar à sua volta verificará que estamos num local especial. Eu falo por mim, nunca havia visto uma paisagem tão bonita, nem nunca tinha sentido esta paz interior que nos enche a alma. Este é lugar é a nossa casa, sempre foi, nós é que temos primeiro uma passagem por outro lugar, até conseguirmos chegar à entrada das árvores seculares, como tão bem batizou. Uns conseguem encontra-la na primeira passagem, outros à segunda, e outros nas vezes que forem necessárias para que consigam ser chamados pelo bosque. O que eu quero dizer é que quem consegue chegar aqui, conseguiu atingir o seu propósito, e agora pode usufruir de todo este esplendor. Quando há pouco lhe disse que não sabia há quanto tempo estava aqui, foi porque na verdade, depois de entrarmos no bosque, há uma longa caminhada a cumprir, é uma espécie de purificação, e só depois de estarmos completamente preparados para esta fase é que conseguimos descortinar o nosso trilho, que por sua vez, vais dar acesso à nossa casa. E foi o que lhe aconteceu. Depois de encontrar a sua casa, terminou o seu processo de catarse e encontrou o lago, as restantes casas, e os seus companheiros do bosque.
-      E o que é que podemos fazer por aqui?
-      Tudo o que quisermos, quando quisermos e como quisermos. Se estamos aqui, tudo aquilo que fizermos não prejudicará ninguém. Vai ver que não faltará o que fazer.
-      E a minha família que eu deixei?
-      Se encontrou esta casa é porque a sua família está bem, e sabe que também está bem, onde quer que esteja.
-      Acho que já percebi.
-      Já percebeu há algum tempo, só precisava de uma confirmação, de uma voz amiga que o ouvisse, que o acolhesse e que lhe dissesse que está tudo bem.
-      Isso parece-me uma forma muito eufemística de me dizer que morri. – disse eu sem pensar.
-      Não, meu filho, não morreste. Apenas ganhaste direito ao descanso eterno.  

Sem comentários:

Enviar um comentário