sexta-feira, outubro 02, 2015

Ao Sabor do Vento

O vento soprava forte. Do céu emanava uma luz soalheira que alumiava aquele dia que se perdia a cada instante, a cada nuvem que emergia no céu azul-claro, pincelando-o com um cinzento mestiço, tornando-o pálido e escuro. As gaivotas há muito que partiram, sinalizando que a tempestade estava a chegar e deixando as nuvens espessas e húmidas, que ameaçavam uma precipitação forte, como protagonistas da tela.
A intempérie iniciou-se com suaves lufadas de ar quente que moviam as águas frias do mar, provocando um movimento mais intenso nas águas, até que a cada ronda que passava o mar agitava-se, emergiam timidamente as primeiras ondas destinadas a embater bruscamente nos rochedos banhados pela espuma branca da água salgada. Havia um certo compasso nas passagens, havia uma rebeldia desinteressada e selvagem na forma como o vento rasava as águas, outrora frias e vegetativas, tocando-lhes com uma carícia brusca e sem forma, deixando-as quentes e ansiosas por um desejo insaciável de viver, de sair da inércia e criar vida para além da vida.
O cenário vislumbrava toda a beleza da força da natureza, um vento forte e imponente, um mar inquieto com ondas enormes, um céu carregado de nuvens cinzentas, tudo peças de um cenário dantesco que transbordava uma simplicidade tão pura, tão natural como uma dança entre o ar e a água, entre o vento e o mar, com cortejos e conquistas, tudo parecia culminar na simbiose do bailar ao som da melodia da vida. À medida que o tempo ia passando, outros ventos e outras águas chegavam, e dançavam na pista que se tornava pequena naquela imensidão, moldando um movimento uníssono de harmonia e de energia.
Já não havia apenas ar e água, o que antes eram dois, agora unira-se num só corpo que se perdia na pista do céu, sem rumo, deixando-se levar por uma valsa dançada num voo sem destino. Ao som da nossa melodia que se ia intensificando, tornando tudo mais forte, mais energético, mais contagiante, enlaçando-os numa viagem que podia percorrer o mundo, sempre juntos, sempre fortes e sempre vivos.
Olhando para o corpo principal que se destacava no meio de todos os outros que chegavam e que completavam a imagem de um salão de baile a dançar uma valsa comemorativa de uma união, todo o cenário, todo o enredo, tudo era próprio de uma ópera que se iniciara com a apertura, deixando agora que o recitativo tomasse lugar, desconhecendo o que segregavam, a ária teve lugar apenas no pensamento dos protagonistas que, revolvendo-se numa força assoberbante, agitando tudo o que os rodeava, terminaram o ato num abraço eterno e fraterno ao farol.

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