sábado, setembro 12, 2015

O Tempo Que Não Compreendi

No horizonte, o mar traça uma linha horizontal perfeita e longínqua, um cordel balizado por uma distância que num olhar perdido na imensidão do azul-escuro que nos envolve, convencendo-nos que conseguimos ver nesse ponto o lugar onde o mundo dá a volta para retornar até nós.
            Sentado nas rochas frias e húmidas banhadas pelas águas salgadas do oceano, não consigo deixar de focar o meu olhar naquele fio, olho de uma ponta a outra descobrindo que a sua infinidade é desconcertante, tanto na distância entre nós, como na distância entre os pontos invisíveis que limitam aquele lugar. O brilho dos meus olhos fica cada vez mais húmido, há um lacrimejar salgado e espesso que banha o meu olhar, obrigando-me a torná-lo cada vez mais focalizado no horizonte que me acena com uma espécie de imagens refletidas na água que bailam num compasso sereno e tranquilizante. Não consigo vislumbrar com nitidez que imagens estão a ser refletidas, apenas consigo perceber que cada uma tem um impacto diferente em mim. Continuo sentado nestas rochas, mas já não as sinto frias nem húmidas, o meu corpo ficou rígido e inerte, à distância não se vislumbra nenhuma alteração, posso afiançar isso, porque estou a olhar para ele dentro desta água fria e relaxante que me absorveu.
            À medida que me afasto daquelas rochas ásperas e agrestes, as imagens que surgem como aparições começam a ficar mais nítidas e delineadas, ainda que não as consiga distinguir, todas elas surtem em efeito distinto em mim, cada vez mais forte, como se agora a nossa ligação estivesse mais próxima, agora que eu sou azul-escuro, húmido e frio. Já não vejo o meu corpo, estou no meio do oceano rodeado de nada, apenas com aquela linha no horizonte a guiar-me, e por mais que me aproxime a distância mantém-se, valendo-me apenas a sensação de fazer parte daquele reflexo, a sensação de me conseguir configurar naquelas imagens, como que se as pudesse desenhar em sintonia com as que figuram no meu pensamento.
            Continuo a navegar, agora com o objetivo de sentir as imagens que produzo com o meu pensamento, mas, à medida que as imagens ficam mais nítidas, percebo que as imagens que se refletem naquelas águas embora sejam minhas, embora sejam passagens do meu subconsciente, não são controladas por mim. Surgem numa cadência rápida e fugaz, por vezes o sentimento que provocam é apenas um sopro no coração, uma leve pancada na alma que não viu e sentiu aquele momento; outras vezes é mais demorado, diluindo a intensidade pelo tempo da sua passagem. Não obstante a ondulação constante das águas, sinto-me paralisado, olho em volta e só vejo um azul-escuro longo e imponente, coberto de imagens espalhadas ao meu redor, mas já não lhes consigo tocar.
A água chega até aos meus pés, embora esteja fria, sinto o conforto da intimidade, tenho a sensação que as pedras se moldaram ao meu corpo, para poder continuar a olhar para aquele ponto onde à distância parece que o mundo dá a volta e retorna para nós, para aquele lugar onde o tempo passa e leva com ele momentos que não fomos capazes de os sentir e compreender.

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