sábado, setembro 26, 2015

Rosa Branca

            O Outono principia-se com uns chuviscos que timidamente se intrometem no ar soalheiro que nos escapa, hidratando-nos a alma da secura da efemeridade do verão. Olho em frente e continuo a percorrer o caminho tentando passar pelos pingos que caem cada vez mais grossos, tornando cada vez mais difícil calcorrear a estrada padronizada por uma calçada portuguesa gasta e pouco cuidada, rodeada de buracos cheios de um vazio a cheirar a terra húmida. Naquela vista, o trilho vislumbra-se como um puzzle enorme, com peças que se perderam ao longo do tempo. Neste trajeto tortuoso que procuro cumprir sem cair, encontro-te… foi com a candura da tua existência que deixei de correr e parei, tentavas preencher um desses espaços. Olhei em volta e não descortinei outra igual a ti; cheguei-me mais próximo e deixei-me deslumbrar com as tuas pétalas espessas, com uma leve penugem, provocando-me um desejo incontrolável de as acariciar e sentir o aveludado singelo, sentindo a cada toque, a cada carícia que o meu corpo estava a ser protegido dos pingos que continuam a cair.
            A chuva miudinha abençoa este dia que marca o início da nova estação, os pingos já não me incomodam e já não tenho pressa para percorrer esta estrada, ela está parada e eu posso continuar mais tarde. Sento-me no chão calcetado por pedras frias e húmidas, cruzo as pernas à chinês como uma criança e com as mãos a segurar-me o queixo contemplo-te, observando cuidadosamente a tua pureza, desde a forma como frondesceste do meio das pedras que calcam esta terra húmida esquecida, envergando um corpo verde-vivo, culminando na brancura na forma de coração que alumia este pedaço do caminho que outrora esteve preso em liberdade na escuridão que a luta pelo esquecimento nos provoca.
            Não corria nem uma pequena brisa, não obstante os pingos que caiam numa cadência inerte e mecânica. A contemplação de uma flor só por si não seria estranha se não estivesse sentado à chuva numa calçada molhada e fria, no entanto, todo este cenário faz-me mais sentido a cada instante que passa. Este lugar parece-me importante para ti, podias ter brotado em qualquer um dos muitos outros lugares vazios que preenchem este percurso, mas não o fizeste; podias ter escolhido permanecer escondida, mas deste-te a ser sentida. Não sei se me procuraste, ou se fui eu que te encontrei, importa agora que estou aqui sentado a olhar para ti, a sentir-te, a sentir a tua pulsação que, como um coração, bate forte, cresce e volta à sua posição natural, e neste ciclo de pulsações atrás de pulsações sinto um espaço esquecido no meu coração a acordar. A cada batida do teu crescimento, sinto o espaço de terra castanho-escuro do meu coração a desabrochar uma rosa branca que alumia o meu amor por ti.
Levantei-me e continuo a percorrer este trilho, agora com um sorriso nos lábios, imaginando que todos aqueles lugares vazios e esquecidos no tempo podem ser lembrados a cada momento por singelas rosas brancas.

terça-feira, setembro 22, 2015

Hoje, Vi-te e Senti-te Outra Vez

Por vezes tenho uma sensação estranha que os dias passam sem lhes darmos o verdadeiro valor, passando por eles sem sequer os sentirmos. Levantamo-nos, vamos trabalhar, voltamos para casa e só queremos deixar de pensar, nem que seja por um minuto... só um minuto, para recuperar as forças de um dia que passou sem que déssemos por ele, esquecendo-nos de abraçar a vida que nos foge pelos dedos.
Felizmente nem todos os dias são assim, há aqueles em que vivemos pequenas coisas que nos fazem perceber que estamos mais ricos, pois temos mais um dia na nossa contabilidade. Hoje, foi um desses dias, senti-o a entrar no património dos meus dias, dos dias que são só meus, dos dias que dedico à minha vida, que cada vez mais controlo menos. Hoje, eu vi-te e senti-te outra vez.
De mão dada a um rapazote de cabelo castanho-escuro com ar de traquina, passeavas pelo centro comercial deixando no ar o aroma doce e frutado do teu perfume. Delicadamente explicavas algo ao reguila, que queria entrar na loja dos brinquedos, com a meiguice que te era particular, segredando-lhe palavras cuidadas que o acalmava. Depois dessa vitória, procuravas com o olhar uma zona dos fumadores – nunca te vi a procurar uma zona de fumadores, não existia na altura esta questão. Imaginei que quisesses dar uma passa bem forte num SG Gigante e depois dedicasses o tempo em que o cigarro ardesse, sozinho e lentamente, a arranjar as fraldas da camisa do reguila que teimavam em sair das calças, penteavas-lhe o cabelo e certificavas-te de que estava perfeito, e só aí seguirias caminho sem olhar novamente para a beata que, entretanto, se apagara.
Ao ver-te, abriu-se a janela da saudade, abriu-se novamente a ferida que tarda em sarar, queria ter ido ter contigo, mas preferi observar-te de longe onde estávamos os dois de mão dada a passear algures, mas, quando dei conta, senti-te outra vez, e mais uma vez, de um momento para o outro, sem que estivesse preparado, senti-te a fugires-me do olhar, do pensamento, permanecendo a dor de quem ama.
Fiquei sentado no banco a lembrar-me que faz tempo demais que partiste sem aviso. A vida segue o seu ritmo, como um comboio em andamento, e nós temos que o apanhar para não ficarmos perdidos no espaço vazio da saudade. A tua ausência deixa em aberto um espaço de felicidade que me estava destinada – não fosse ela resultado de momentos, felizes ou infelizes, que vivemos ao longo da vida.
Insensatamente, liguei o telemóvel e olhei uma fotografia tua, estavas diferente, os anos haviam passado por ti, tentavas esboçar um sorriso, mas quem te conhecesse, percebia facilmente “que chegavas a fingir que é dor, a dor que deveras sentias”.
Não consegui processar a imagem daquele instante durante largos minutos perdi a noção do tempo, até que ao ver-me novamente de mão dada contigo a minha face forçou um sorriso involuntário, tu estavas bem e feliz, como outrora também o foste, e eu vivi mais um momento.
Voltei ao trabalho, depois para casa e vivi o resto de um dia que contou. Os dias só contam quando marcam um traço de felicidade no caderno das contas, todos os outros servem de passagem de uma vida que não controlamos.
Hoje, vivi de forma completa, porque tornei a amar-te, mesmo que tenha doído.

sábado, setembro 12, 2015

O Tempo Que Não Compreendi

No horizonte, o mar traça uma linha horizontal perfeita e longínqua, um cordel balizado por uma distância que num olhar perdido na imensidão do azul-escuro que nos envolve, convencendo-nos que conseguimos ver nesse ponto o lugar onde o mundo dá a volta para retornar até nós.
            Sentado nas rochas frias e húmidas banhadas pelas águas salgadas do oceano, não consigo deixar de focar o meu olhar naquele fio, olho de uma ponta a outra descobrindo que a sua infinidade é desconcertante, tanto na distância entre nós, como na distância entre os pontos invisíveis que limitam aquele lugar. O brilho dos meus olhos fica cada vez mais húmido, há um lacrimejar salgado e espesso que banha o meu olhar, obrigando-me a torná-lo cada vez mais focalizado no horizonte que me acena com uma espécie de imagens refletidas na água que bailam num compasso sereno e tranquilizante. Não consigo vislumbrar com nitidez que imagens estão a ser refletidas, apenas consigo perceber que cada uma tem um impacto diferente em mim. Continuo sentado nestas rochas, mas já não as sinto frias nem húmidas, o meu corpo ficou rígido e inerte, à distância não se vislumbra nenhuma alteração, posso afiançar isso, porque estou a olhar para ele dentro desta água fria e relaxante que me absorveu.
            À medida que me afasto daquelas rochas ásperas e agrestes, as imagens que surgem como aparições começam a ficar mais nítidas e delineadas, ainda que não as consiga distinguir, todas elas surtem em efeito distinto em mim, cada vez mais forte, como se agora a nossa ligação estivesse mais próxima, agora que eu sou azul-escuro, húmido e frio. Já não vejo o meu corpo, estou no meio do oceano rodeado de nada, apenas com aquela linha no horizonte a guiar-me, e por mais que me aproxime a distância mantém-se, valendo-me apenas a sensação de fazer parte daquele reflexo, a sensação de me conseguir configurar naquelas imagens, como que se as pudesse desenhar em sintonia com as que figuram no meu pensamento.
            Continuo a navegar, agora com o objetivo de sentir as imagens que produzo com o meu pensamento, mas, à medida que as imagens ficam mais nítidas, percebo que as imagens que se refletem naquelas águas embora sejam minhas, embora sejam passagens do meu subconsciente, não são controladas por mim. Surgem numa cadência rápida e fugaz, por vezes o sentimento que provocam é apenas um sopro no coração, uma leve pancada na alma que não viu e sentiu aquele momento; outras vezes é mais demorado, diluindo a intensidade pelo tempo da sua passagem. Não obstante a ondulação constante das águas, sinto-me paralisado, olho em volta e só vejo um azul-escuro longo e imponente, coberto de imagens espalhadas ao meu redor, mas já não lhes consigo tocar.
A água chega até aos meus pés, embora esteja fria, sinto o conforto da intimidade, tenho a sensação que as pedras se moldaram ao meu corpo, para poder continuar a olhar para aquele ponto onde à distância parece que o mundo dá a volta e retorna para nós, para aquele lugar onde o tempo passa e leva com ele momentos que não fomos capazes de os sentir e compreender.

sexta-feira, setembro 04, 2015

A Estação


O dia começa timidamente a clarear com uns raios de sol que rasgam as nuvens provocando a orvalhada matinal que dança com preguiça no ar, disseminando um sabor húmido e frio. O som metálico solfejado pela máquina que se desloca para a linha, onde jazerá à espera daqueles que se preparam para partir. O relógio redondo, de fundo branco e ponteiros negros e esguios, marca as cinco da manhã. Por enquanto ainda não há viajantes, apenas os preparativos da máquina que se alinha, para que, à hora certa, o seu sinal sonoro desperte a partida.

O sinal sonoro ainda não arrebatou esta inércia matinal, mas já não estamos sozinhos, nunca estivemos sozinhos embora o silêncio impere entre nós faz uns dias. Ainda não consegui digerir que vou ficar sozinha durante uns tempos, nesta terra onde o diabo perdeu as botas, quando tu me podias levar contigo. “Porque vais? Porque não me levas contigo? Podia fazer umas compras, ou visitar a minha prima?”, pergunto-lhe eu numa réstia de esperança para que compre mais um bilhete. Não trouxe bagagem, mas não me importava de lavar todos os dias esta mesma roupa, só para estar perto de ti, mas tu não entendes, não entendes que vou ficar em casa fechada, porque não é de bom tom uma senhora casada sair à rua sozinha. “Não me respondes? Pelo menos não partas a ignorar as minhas perguntas!”, desafio a responder o que já me respondeu e eu não quis entender. O seu olhar concentrado no horizonte da linha, apenas desviado para o seu relógio de bolso de cinco em cinco minutos desconcerta-me, mas não posso fazer uma cena no meio da estação. “Ficarás bem, aproveita para ler e reestabelecer os laços com as senhoras da sociedade.”, disse-me num tom pausado e assertivo. “Por muito que te responda, não queres entender que não vou porque quero, vou porque tenho de ir, ponto!”, e com o “ponto” quis dar por encerrado o assunto que eu ainda queria reabrir, mas não o podia, em abono da verdade, eu sabia que era assim, que ia em benefício dos dois e pelo nosso futuro. O sinal sonoro fez-se soar e salvou o embaraço daquele silêncio. “Desculpa, viaja em segurança e que tudo corra bem. Volta depressa...”, disse-lhe enquanto limpava uma lágrima que teimava em balançar na bolsa dos meus olhos. Esperei que o comboio arrancasse, deixando para trás uma nuvem de pó e cheiro a carvão queimado, mas sentindo os seus lábios na minha cara, e imagem do nosso olhar complementado com um sorriso só nosso.

O relógio marca as dez da noite e o altifalante avisa-nos que estão a chegar dois comboios, um intercidades e um alfa pendular. A azáfama começa a emergir com os comboios a parar e as pessoas a saírem, quase todas com o telemóvel na mão, com as malas de computadores a tiracolo, e quase todas sem ninguém à sua espera. No final da fila das pessoas que se atropelam para chegar mais rápido aos táxis, ou a nada, vem um senhor, de fato escuro, com uma mala de couro, que calmamente se dirige à porta da estação e beija na bochecha a cara de uma senhora e lhe sorri.