domingo, dezembro 07, 2014

Na Sombra Fria da Lareira

A sala é invadida pela luz taciturna que irrompe por entre os pequenos quadrados de vidro que decoram as janelas emolduradas pela madeira gasta pelo tempo, lembrando-nos o frio que jaz sobre as camadas de ar que respiramos, em contraste com o crepitar dos troncos que, teimosamente, bailam por entre as chamas da lareira, troteando um som singular, característico dos pedaços de madeira nobres que vivem os seus últimos instantes fingindo o destino, projetando labaredas para o ar e, de quando em quando, soltando um pipocar forte e seco, prendendo a atenção de que quem assiste aquele glamour apoteótico da força de um final que se consegue quente e reconfortante. Com uma regularidade sem par, quando a harmonia começa a pairar sobre o ambiente e a resignação, o fogo que jaz na lareira renasce para um último ato, marcando a sua presença, o seu cunho, preenchendo a sala com um ar quente e com um ligeiro sabor a queimado, quebrando o silêncio da conversa dos nossos olhares que se fitam à medida que o dia avança, com um som ritmado e acolhedor.

Há muito que os meus olhos já não se prendem no televisor que vocifera um vazio de interesse, há muito que os meus olhos se prendem naquele bailado que me atrai com uma simples chama de calor, imanada por uma simples lareira, que não se resigna a perder a força distinta de quem sabe chegar ao fim. A cada passo, levanto-me para procurar cuidadosamente no meio da lenha, um tronco grosso e maciço, um tronco que seja digno para alimentar aquele fulgor, aquela necessidade de manter acesa aquela luz quente, um tronco que faça perdurar aquela chama que através do seu esplendor se transforma numa espécie de voz, com frases soltas por entre o brilho que contorna o fogo que se ondula por entre a madeira que rejubila com estalares estridentes e serenos.

O céu começa a deixar cair um negrume húmido, escurecendo a luz natural de mais um dia de inverno. O dia avança, a luz taciturna que cobre os céus desce sobre a terra, passando paulatinamente o testemunho à noite. A lareira mantém-se acesa, com mais ou menos fulgor, dependente dos pedaços de madeira densos e robustos, cada um deles entregues a si próprio, representando o seu último ato com a nobreza de quem nada teme. Sentado na poltrona, fixo-me naquele emaranhar se luz alaranjada com rasgos azuis, que permanecem sincronizados numa dança hipnotizante. Olho para a lareira e vejo-me no sofá, parado, de chávena de chá na mão, com a manta nas pernas, deixando o tempo correr. As chamas crescem, ganham um corpo denso e vigoroso, as minhas pernas ficam quentes, os meus braços acompanham o sincronismo daquela dança alaranjada, olho-a e vejo-me a fitar-te, desafiando-te para mais uma dança, não sei se será a última, isso já pouco importa, a temperatura que me invade precisa que dancemos como só alguns o sabem fazer, aquecendo a sombra fria da lareira.


terça-feira, dezembro 02, 2014

O Barco Que Sonha

UMA FOTO, UMA LEITURA

                                 Fotografia: António Tedim (http:\\antoniotedim.blogspot.com)
                                 Texto: Rui Santos (http:\\cognitare.blogspot.com)
 
 
O sabor húmido da orvalhada chegou até mim, sentia-a muito antes de me tocar, caminhou até mim com serenidade, cobrindo suavemente cada parte deste meu corpo indolente com gotas de água flácidas e leves. A cada manhã espero que o inevitável não aconteça, espero que as minhas saudades se dissipem com o vento que me limpa, imaginando-me novamente a deslizar nestas águas frescas e fraternas que me cercam num abraço protetor, nestas águas que ignoram a minha inércia e evitam, dia após dia, que esta carcaça esquecida se afogue. O cheiro da matina acorda-me o sonho de voltar a vaguear neste manto líquido com o fulgor de quem renasce do abandono.

            Os braços esguios, longos e macios que espreitam na superfície da água afagam timidamente o fundo do meu casco, chego mesmo a ter a sensação que o fazem quase a medo. Deixo que percebam que estou exposto, que lhes tenho a confiança necessária para que me sinta confortável com o toque quente e humente que se vai apoderando, desde a proa até à popa. Não nego que há uma inquietação que vai crescendo em mim, uma espécie de curiosidade com uma pitada de medo. As carícias iniciais começam a tomar conta do casco, as ramagens finas que me envolvem começam a tornar-se um corpo só, um corpo mais forte e denso, limpando o musgo que já fazia parte de mim.

            Hoje há um toque mais intenso das águas que emergem até mim. Na matina as águas costumam passear-se pelo meu casco numa rotina de reconhecimento do território, muitas vezes procurei dizer presente, mas a palavra pareceu-me sempre excessiva e optei sempre por não dizer nada, para evitar ter de dizer...esquecido. As batidas das águas tornaram-se mais fortes, sem nunca serem bruscas, apenas o suficiente para me agitarem. A inquietação que se iniciou há pouco começa a ganhar outra intensidade, começo a sentir que algo se vai passar e não consigo vislumbrar o quê. A ramagem que me limpa, acaricia e envolve-me; as águas embatem contra mim como quem lava a cara pela manhã; algo se passa, todos sabem menos eu, menos este pequeno barco perdido na imensidão desta lagoa.

            O interior do meu corpo sente o calor do sol que se abre para mais um dia, seca a humidade do orvalho, deixando os bancos e os remos mais confortáveis para quem quiser trilhar comigo estes caminhos à procura de serem desbravados. Os minutos perdem-se pelo dia e não aparece ninguém a reclamar um barco perdido e esquecido nestas águas que convidam a um passeio. O meu casco está limpo, a minha cara foi lavada, o meu interior está seco e as águas convidam-me a navegar sobre elas, e eu, continuo inerte neste recanto, desmemoriado da história e da vida.

            Com a resignação habitual, a minha inquietação começou a acalmar, a ramagem que me envolvia largou-me com impulso, ainda que continue a sentir as suas carícias, as águas doces e delicadas envolvem-me numa ondulação que me afasta e, de repente, dou por mim a deslizar pela lagoa que se recusou a esquecer-me, fazendo de mim novamente um barco que sonha.