quarta-feira, outubro 31, 2012

Foges-me


UMA FOTO, UMA LEITURA


Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Fontes Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Foges-me


Foges-me. Foges-me por entre estes meus dedos jovens e imaturos que não sabem conhecer-te, não sabem chegar a ti, foges-me a cada avanço que instigo para recuperar os laços frágeis que criamos na ignorância da juventude, na belle époque da vida dos felizes contemplados que têm tudo sem esforço. Tudo era fácil e, eu, apenas eu, na ingenuidade e veleidade da imaturidade que me confortava, não percebi que as coisas se haviam tornado difíceis para ambos, era necessário sair do conforto da inércia, era necessário esforço, dedicarmo-nos a nós, dar-lhe prioridade em vez do eu…tu foste fazendo isso e, eu, apenas eu, achei que se um de nós o fizesse era o suficiente, mas não, permiti que um vidro grosso e transparente irrompesse entre nós. Sem dar conta vejo-te a fugires-me através desta parede e, quanto mais procuro chegar a ti, mais bato com a minha cara de miúdo púbere neste muro invisível e cruel que nos separa.

Com a cara colada nesta barreira fria grito bem alto que percebi, que vou fazer as coisas de forma diferente, que vou deixar que a barba comece a aparecer nesta cara de miúdo mimado, que hoje mesmo vou ao supermercado e comprarei o que quiseres, ou melhor, o que precisarmos. Farei uma lista, isso, farei uma lista de compras, vou ao supermercado e tu podes ficar em casa a descansar. Vê um filme, lê uma revista ou dedica-te a um livro. Ouviste-me? Ouviste-me? Estou a gritar e tu não me escutas, continuas a encher essa mala com a tua roupa imaculadamente dobrada aproveitando cada espaço vazio, sem desperdícios. Ignoras-me ou não me ouves, não sei bem qual das duas coisas é pior, fingires que não ouves que vou mudar ou já não conseguires ouvir-me. Mas eu continuo aqui, de cara colada neste vidro gelado a esforçar-me para que percebas que quero mudar, que quero melhorar, que não vou desistir até que olhes para mim e me ouças. Ouviste? Ouviste? Eu vou continuar aqui até que me ouças!

Começo a desesperar só de imaginar a tua ausência, começo a desesperar com o facto de me ignorares. É tarde? Diz-me, é tarde? Estou aqui aos murros nesta parede estúpida, que nem dignidade tem para ser vista, esmurro-a cada vez com mais força com a leve esperança que a possa partir e chegar até ti, pegar na tua mão, ajoelhar-me e fazer promessas que não sei se vou conseguir cumprir, mas serão as promessas que me vão na alma, ou pelo menos serão as promessas que devo fazer. É o que se espera de mim, certo? É isso, se conseguir chegar até ti tudo vai melhorar, tudo vai ser diferente. Mas este vidro irritante não me deixa, as minhas mãos ensanguentadas já me doem, começo aos pontapés, cada vez com mais força e, nada…nem o vidro se mexe, nem tu alteras a tua rotina, calmamente a colocares peça a peça na mala, vais arranjando o cabelo como se nada se passasse, ele cai-te e tu passeias as tuas mãos delicadas e maduras nesse teu voluptuoso cabelo preto, forte e brilhante, deixando-me cada vez mais desesperado.

Fechaste a mala, estás a olhar em volta a ver se falta alguma coisa. É agora a minha oportunidade. Arranjaste o fato, o cabelo, respiraste bem fundo até que finalmente te viraste. Olhaste-me nos olhos e sem que eu pudesse esboçar qualquer palavra, ouvi-te dizer: “Adeus”.

sábado, outubro 27, 2012

Travessia


UMA FOTO, UMA LEITURA

Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Travessia



Parece não ter fim esta ponte desmedida e austera, envolta neste ferro pesado e rígido, rasgada pelos raios de sol, que teimam em passear pela cidade invicta ignorando o negrume que tanto a embeleza. Caminho nela desde sempre, vou avançando, passo a passo, já a percorri a grande velocidade, em jovem percorri-a a todo o vapor, com medo que o amanhã me fugisse, vivi um sem número de histórias que marcaram a minha existência. Com o passar dos anos, a destreza com que dava cada passo, com que arriscava cada avanço foi perdendo o seu fulgor, comecei a acusar uma carga que me pesava as costas. Já fui jovem e agora estou menos jovem, já tive o cabelo forte e negro e agora tenho esta brancura que me cobre o couro cabeludo mostrando bem que o tempo passou, já tive um corpo jovem e hirto e, agora, mesmo não conseguindo erguer as costas, continuo a caminhar ao sabor do vento.

Prossigo a minha caminhada com o mesmo empenho do início desta jornada, entrei nesta ponte, de chão irregular que teima em fintar os meus pés, com o objectivo de chegar ao outro extremo, independentemente do que que possa acontecer, vou consegui-lo, com maior ou menor dificuldade, vou marchar até que os pés, que já pouco se levantam, não consigam dar o próximo passo… Foi a olhar para a frente que cheguei até aqui, desde o começo, sempre com o olhar colado na outra extremidade, sem pressa de lá chegar, apenas sabia que queria chegar lá, saboreei cada momento com o deleite que me merecia. Desde a infância até agora fui deambulando com uma incessante procura pela felicidade – caí, levantei-me, voltei a cair e voltei a levantar-me, vezes sem conta, dancei, namorei, embebedei-me nos bailes da cooperativa, trabalhei, casei, tive filhos, netos, bisnetos, entreguei-me a esta passagem sem medo do amanhã, sem medo desta dádiva que é jornadear em cima desta ponte, umas vezes pérfida, outras vezes presenteando-nos a abertura dos ferros, dando-nos o azul celeste do céu, a luz, a esperança, permitindo que essa luminância nos encha a alma e nos permita dar mais um passo a caminho da extremidade que se vai aproximando.

Hoje, ao chegar à extremidade, mantenho o sorriso de a estar a caminhar, ainda que, na verdade, o cansaço se tenha apoderado de mim a cada passada e, com isso, a força das minhas pernas já não seja a mesma de outrora. Olhando para a reta final, ainda sinto que consigo, sozinho, caminhar devagar, arrastando os pés de costas curvadas e pesadas carregando comigo esta mala – a minha mala cheia de histórias, cheia de lembranças, cheia de alegria – para quando chegar lá ao fundo, na incontornável extremidade, onde a ponte que afinal era de ferro se vislumbra em madeira branca e maciça, poder esticar-me com dignidade, olhar de novo em frente e, de costas bem estendidas, a poder abrir e com os braços fortes e musculados de outros tempos, deixar que tudo o que a encha se espalhe no ar e caia lentamente no coração de cada um dos que me acompanharam nesta jornada, porque tudo o resto trago comigo na minha alma.