domingo, junho 24, 2012

Um Pouco de Si em Mim

Com este conto obtive o 2º Lugar no II Concurso Literário do Serviço de Humanização do Centro Hospitalar de São João com o conto "Um Pouco de Si em Mim".
Os textos premiados deste Concurso serão apresentados em exposição no Atrium Hospitalidade do Centro Hospitalar de São João, entre os dias 22 de Junho e 31 de Agosto de 2012, a quem cedi gratuitamente os direitos de utilização, exibição e reprodução ao Serviço de Humanização do Centro Hospitalar de São João para fins promocionais e/ou culturais.
 
Um Pouco de Si em Mim
Envolto dos lençóis dormia. Lá fora a chuva caía de forma precisa e homogénea, primeiro numa ameaça fugaz, depois com pujança replicando nas telhas gastas do telhado. Nessa manhã daquele inverno rigoroso, o dia começava paulatinamente a irromper sobre a noite, abrindo-se de forma lenta e penosa, com a claridade a conseguir desabrochar por entre as nuvens cinzentas que cobriam o céu. Timidamente, por entre as frinchas de uma persiana estragada, a luz da estrela central do sistema solar imanava uma luminância branda e pouco vigorante, passeando com dificuldade pelo quarto, atingindo-lhe a cara, despertando-o do sono profundo de mais uma noite de estudo.
O despertador tocou às sete em ponto, levantou-se e arranjou-se no quarto de banho do corredor que partilhava com o avô. Eram quase oito horas quando o foi acordar. Chamou-o com o cuidado e com a delicadeza de quem toca numa flor, neste caso um cravo vermelho e aveludado.
-  Avô, são horas de se ir arranjar – disse-lhe, quase sussurrando.
-  Arranjar-me? Que horas são?
-  São oito horas. Vá-se levantando e pode ir já para o quarto de banho que eu já estou pronto. Vou preparar o pequeno-almoço, está bem?
-  Está bem – e virou-se com preguiça para o outro lado à procura do sono interrompido.
-  Vá, não se vire. Vai chegar atrasado.
-  Nesta idade eu já não chego atrasado a lado nenhum.
-  Vou fingir que não ouvi, porque deve ser do sono. Podemos sempre chegar atrasados.
O avô levantou-se a custo, ficou uns minutos sentado na beira da cama a olhar para o espelho. Tocou na sua face, sentiu a pele fina e macia, percorreu as rugas – que ganhou com cada experiência de vida – com suavidade, numa espécie de carícia, até que num impulso ganhou coragem e foi para o quarto de banho, enquanto o neto preparava o pequeno-almoço. Esta semana estavam sozinhos, os pais do jovem tinham ido passar uns dias de férias para o campo repousar do ritmo frenético que levavam no dia a dia. Faziam-no duas a três vezes por ano, uma vez que não tinham possibilidades de ir de férias na época alta. O neto e o avô estavam já habituados a essa rotina, em boa verdade era o próprio avô que muitas vezes os incentivava a irem para a aldeia. O pequeno-almoço tinha que ser reforçado para que o avô aguentasse a manhã na Universidade Sénior. Depois da morte da avó, a família tentou de tudo para que o avô se mantivesse ocupado e ativo. Nesse momento, as suas grandes aventuras eram a Universidade Sénior pela manhã e, à tarde, a ginástica que a câmara municipal proporcionava. Desde que começou a frequentar estas duas atividades, notou-se um novo estado de espírito concomitante com uma nova frescura física. O homem cabisbaixo dera lugar a uma nova etapa de vida, a uma nova experiência, a uma nova amizade com o seu neto.
O pequeno-almoço reforçado não era mais do que um pequeno-almoço normal, mas o neto fazia questão de o preparar cuidadosamente e com a variedade que lhe era permitida, primeiro, para garantir que o avô o tomava e, segundo, que não abusaria das gorduras e do açúcar. Após a refeição, ambos tinham como destino a universidade – o neto tinha entrado na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, estava no segundo ano e conseguia ter boas notas. No seu Volkswagen Polo de 1997, comprado com o dinheiro que ganhou a trabalhar nas férias, seguiam viagem numa discussão sobre que estação de rádio deviam ouvir, o avô queria notícias e o neto música. O avô argumentava que saber as novidades do dia ajudava na instrução das pessoas. O neto perdia na ausência de argumentos válidos e cedia com deferência. As duas universidades não eram muito longe, não obstante havia por parte do neto um esforço suplementar na conciliação dos horários, pois também tinha aulas de tarde e ainda que ir buscar o avô.
No caminho para casa havia sempre uma conversa animada, mais parecida com um monólogo, pois o avô debitava com grande entusiasmo o que havia aprendido e o neto deixava que a conversa tivesse só um sentido, por um lado, porque sabia que desta forma o avô exercitava a mente, por outro, gostava de olhar para ele e vê-lo novamente feliz. No entanto, naquele dia, o avô estava calado, qualquer coisa lhe havia retirado a habitual alegria, o olhar triste acentuava as linhas da vida marcadas na sua pele. O neto deixou passar uns minutos até que decidiu interpelá-lo:
-  Então avô, o gato comeu-lhe a língua?
-  Não, ela está aqui, mas não quer falar.
-  Vá lá! Diga-me o que se passou, pode ser que consiga ajudar.
-  Coisas de velhos.
-  Velhos são os trapos. Diga-me, por favor, o que aconteceu. Não gosto de o ver assim.
-  Sabes, nem todos têm a minha sorte. Hoje soube que um amigo, que vive sozinho e não tem ninguém que o ajude, anda a faltar às aulas porque os filhos lhe dizem que a Universidade Sénior é para entreter velhos! Quanto à ginástica, dizem para deixar essas coisas para os netos e que fique em casa. Nem se dignam a visitá-lo!
-  Avô, não se trata de sorte ou azar, trata-se de bom senso. Lembro-me que a avó uma vez me disse uma frase – numa altura em que atirei uma pedra pequena para assustar um gato – que retenho para sempre: "não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti". Para além disso, há uma responsabilidade social entre todos, parece-me demasiado grotesco que se abandone uma pessoa quando ela mais precisa. Não é necessário sermos sequer família! Hoje vamos a casa do seu amigo, para que vá consigo à ginástica. Deixo-vos no parque junto ao pavilhão que é abrigado e, assim, colocam a conversa em dia.
O neto falou num impulso de revolta interior, tentando a todo o custo absorvê-la para que o avô não se enervasse. No regresso a casa, onde o almoço estava já adiantado de véspera, o neto começou a contar os minutos para tudo o que teria de fazer antes da primeira aula da tarde. Teria de ir buscar o amigo do avô e levá-los ao parque. Chegados a casa, o neto apressou-se a colocar a roupa do avô para a ginástica e foi terminar o almoço. Hoje tinha preparação física, por isso, preparou uma massa de carne, sempre ouvira dizer que era o que os atletas comiam antes das provas. A refeição ficou pronta enquanto o avô trocou de roupa. Comeram primeiro uma sopa e depois o prato principal. No final, o neto enganava o avô e dizia que o café tinha acabado e que só tinha cevada. O seu coração já não era novo e, por isso, era preciso cautela – o neto geria a situação de modo natural e verosímil.
A casa do amigo ficava perto do pavilhão, o neto podia deixá-lo e ainda vinha a tempo de vir buscá-lo depois da ginástica. O carro parou em frente da casa do amigo, era germinada, pequena e muito mal tratada por fora. O neto perguntou duas vezes ao avô se era mesmo aquela morada que mais parecia uma casa abandonada. Confirmou que sim, que nunca havia entrado, mas que já o tinha vindo trazer quando o amigo andava mais doente. Bateram à porta. Esperaram uns minutos até que o amigo a viesse abrir. A porta de madeira está degradada e, a cada uso do batente, mais um pedaço de tinta caía como um floco de neve. O amigo continuava sem responder, o avô repetia a cada cinco segundos que o amigo ouvia mal, o neto começou a ficar preocupado.
-  Há quanto tempo não o vê? Tem a certeza que é neste local? Parece abandonada!
-  É aqui, tenho a certeza. A verdade é que não o vejo há mais de uma semana.
O neto, cada vez mais preocupado, batia na porta ainda com mais força, mais tinta a cair no chão, chegou mesmo a tentar espreitar pelas janelas, mas as persianas há muito que não eram abertas e a sujidade tornava impossível a tarefa. O cérebro do neto fervilhava, começou a raciocinar, o homem era um idoso, a família não queria saber dele, era doente, a casa não era aberta há imenso tempo, há semanas que não aparecia na universidade e na ginástica… das duas uma, ou a família se tornou consciente, ou o homem estava lá dentro e não conseguia abrir a porta. Perante estas duas hipóteses, o neto não teve pena da porta velha e desleixada que se desfazia e deitou-a abaixo com um pontapé. O ar pesado saiu com a mesma força do pontapé, o cheiro era nauseabundo e irrespirável. O neto pediu ao avô para ficar lá fora e entrou com o braço a tapar as narinas à procura do amigo. A casa estava suja, o pó cobria cada peça, não obstante haver uma arrumação generalizada das coisas, o amigo parecia organizado e com experiência da vida em solidão. A casa era pequena, escura, apenas com a mobília essencial, não havia muito por onde procurar. No vazio da sala e da cozinha, restavam o quarto de banho e o quarto. À entrada do quarto, o neto viu o corpo do amigo deitado na cama, parecia que dormitava, a pele estava pálida. O coração do neto palpitou, chamou-o duas vezes, até que em desespero colocou os seus dedos para verificar a pulsação…que batia ao ritmo da sua fraqueza.
O INEM chegou em cinco minutos e o diagnóstico foi perentório, a fraqueza era generalizada e iria precisar de ir imediatamente para o hospital. O neto assentiu e segui-os no carro. O avô estava apático com a situação. Havia um silêncio ensurdecedor no ar. O neto rompeu com aquele estado:
-  O avô está bem? Precisa de alguma coisa? Fale comigo!
-  Como é que isto pôde acontecer?! Eu devia ter vindo mais cedo. Ele também não me ligou, caramba!
-  Avô, não se martirize. A culpa não é sua. Pense que foi o avô que o salvou.
-  Não, não. Foste tu. Insististe em que viéssemos buscá-lo e não te limitaste a deixar-me ali à porta. Preocupaste-te com uma pessoa que nem conhecias. Tenho orgulho em ti…
Esperaram no hospital durante umas horas, até que uma médica veio falar com eles. O amigo estava muito fraco devido à ausência ou ao pobre regime alimentar dos últimos dias. Estava desidratado e foi mesmo preciso uma transfusão de sangue. A médica falava com um ar sério e condenador. No final, disse que dentro de um ou dois dias o podíamos levar para casa.
-  Sra. Dra., estamos muito contentes em saber que o nosso amigo vai recuperar e que chegamos a tempo. Quanto a levá-lo para casa, creio que o hospital deveria contactar os familiares do paciente e informá-los do que se passou e do que poderia ter acontecido.
-  Peço desculpa, pensei que fossem os familiares…
O neto e o avô foram ver o amigo que se encontrava a dormir. Ficaram de passar pelo hospital no dia seguinte. No carro, o neto perguntou ao avô se queria ouvir as notícias. O avô abanou com a cabeça. Disse ao neto que ouvisse a sua música.
-  Os teus amigos são todos como tu? – o avô quebrou o silêncio.
O neto percebendo o medo nos olhos húmidos e inchados do avô rematou.
-  O avô nunca se esqueça que eu só existo porque há um pouco de si em mim.

quinta-feira, junho 07, 2012

A Culpa



UMA FOTO, UMA LEITURA
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)
 
A Culpa


Podemos continuar a falar como se nada tivesse acontecido, neste restaurante onde já fomos um só. Continuámos sem querer mencionar que aquilo que nos trazia aqui já não existe e que nós já não estamos aqui, ou melhor, eu estou e tu estás, mas nós como já o fomos um dia já não estamos aqui porque este vinho maduro tinto de castas do Douro já não perdura na minha boca como outrora, nem as velas que antes alumiavam a minha cara conseguem fazer desaparecer esta sombra da culpa.
 
-  Podias ao menos fingir que estás a ouvir o que te estou a dizer!
 
A verdade é que podia, a verdade é que queria escutar o que estás a dizer, mas tenho medo, tenho medo que perguntes o que é que eu estive a fazer até tarde no escritório, e não vá eu ter que te olhar olhos nos olhos, sem chorar, e dizer-te que tudo aquilo que construímos durante vinte anos foi destruído, tudo porque nessa maldita noite não fui capaz de lhe dizer “não”, “para”, “basta”. Acredita que se eu pudesse voltar atrás tê-lo-ia dito de forma veemente para que não restassem dúvidas da minha posição dúbia, ou talvez não fosse capaz, mas a verdade é que querer-lho-ia ter dito…mas não disse.
 
-  Os senhores aceitam um pouco mais de vinho?
 
Arriscava dizer-te que parece que estamos a beber um pouco demais, mas não, já não o sei dizer, já não mereço dizê-lo, sem ser ofensivo, porque não beber um pouco demais, porque é que só me estou a preocupar agora que já é tarde demais. Como isto, muitas outras coisas poderiam ser ditas neste local onde tudo já não é o que era, porque há dias que mudam uma vida, assim como há vidas que mudam o resto dos nossos dias. Por outro lado, é melhor dizer que aceitamos mais vinho, que embora já não tenha o sabor de sempre, podemos sempre contar com o efeito inebriante do álcool, é melhor dizer que queremos que encha os copos bem cheios e que, sempre que os vir a esvaziar, garanta que não chegam ao fim, porque o melhor é bebermos para esquecer, ainda que tu não saibas o quê, vais com certeza querer esquecer aquilo que não mereces saber e que te fizeram. Vamos beber, beber para esquecer que, um dia, numa noite, num momento, num instante, eu fiz o que não poderia ter feito, para esquecer que fui fraco quando deveria ter sido forte, para fingir que fui homem quando na verdade fui uma besta.
 
Vamos pedir a conta, porque já estou farto do sabor a álcool etílico deste vinho, porque já estou farto destas velas me cobrem a cara de sombra, vamos embora antes que tudo se desmorone na mentira que estamos a viver e fiquemos aqui dentro, presos na verdade, presos na dor, presos no arrependimento. Vamos fugir para bem longe, tão longe quanto possível, onde a distância possa possibilitar-nos voltar atrás e fazer tudo diferente, fazer tudo bem e, aí, bebermos este vinho – aromático, tão encorpado que deixa na boca uma sensação harmoniosa e macia – e deixarmo-nos levar por uma noite de romance.
 
Ainda estamos nesta pocilga, quero ir embora, quero fugir, o empregado não olha, não percebe nos meus olhos que sofro, em desespero recorro ao prático abdicando do cortês para chamar pelo empregado…simulo uma assinatura em plena atmosfera. Podia esperar e esperar para dizer “desculpe”, “faz favor, a conta!”, mas o tempo urge, temos que fugir desta comida que já não alimenta um corpo com uma alma tão carregada de culpa, culpa por ter passado a besta e, ainda assim, tu achares que eu sou bestial, mesmo ao fim de vinte anos, mesmo depois de conheceres todos os meus defeitos, ou melhor quase todos, e ainda assim vês em mim a integridade camuflada por esses vernizes modernos que secam em dois minutos e duram e duram e duram, sempre a brilhar, sempre esplendorosos, a esconder uma unha sem cor, sem brilho, sem vida, sem honra.
 
-  Ó querido, tu hoje estás com uma cara de enterro!
 
                Não me chames querido, não te preocupes comigo, não sejas boa comigo quando eu fui um sem vergonha contigo, e em vez de dizer “para” fechei os olhos e deixei que a minha cobardia me vencesse nesta derrota que significa a morte do “nós”.
 
O enterro ainda está para vir e eu vou sofrer ao ver-te seres apanhada nesta dor ardente, nesta ferida de um fogo que não se vê.