terça-feira, abril 24, 2012

Depois da Vida…a Vida


UMA FOTO, UMA LEITURA

Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

 Depois da Vidaa Vida


No alto deste monte verde fresco e frondescente, a casa fumegava pela chaminé o fumo da lareira em sincronia com cada inalação que saboreava com deleite no meu cachimbo, pairando no ar do alpendre uma nuvem com aroma doce, quase tão acolhedor como o calor que provinha do fogo. A passagem do inverno para a primavera provoca na natureza um período de ajuste, tornando os dias incaracterísticos, num limbo inebriante onde o sol começa a sua batalha para afastar o frio, cedendo delicada e alternadamente, até que, de forma gradual, torna a sua presença imponente e única.
 
A cadeira de baloiço de madeira velha - que tanto ansiei por ela - embala-me no ócio, de cachimbo na boca, pernas cobertas com a minha manta aos quadrados, e uma grafonola a projetar a voz inconfundível de Cole Porter que resiste no tempo e às crueldades que a agulha faz sempre que se passeia pelo LP, já não bastasse o ruído de fundo original do disco. Mesmo neste ambiente e cenário edénico, ainda tenho a tentação de olhar o horizonte para ver o sol a pôr-se, ainda vai alto, sobre a cidade - aquela cidade que me deixou partir para viver a vida depois da vida - como uma espécie de dependência a que ainda não consigo resistir. Rapidamente sou chamado para a minha ansiada realidade com o soar do apito da chaleira, a água ferveu. Nos finais de tarde, gostamos de ficar sentados neste nosso ninho a apreciar o vale de soberba variedade de árvores que agora começam a desabrochar, lentamente, a gozar cada folha nova que renasce, cada flor que dá cor, depois da nudez do inverno. O chá chega, a chávena quente deixa escapar um vapor que acaricia a minha cara enquanto beberico o roibos de olhos colados no olhar da minha mulher que sorri, naquele momento mágico em que o mundo somos só nós os dois, eu sou só dela e ela é só minha no meio do nada que nos enche de felicidade. Cole Porter parece que percebe a intimidade daquele momento e começa a cantar a balada I Am In Love, numa serenata improvisada, aproveitada para declararmos em silêncio o nosso amor.
 
Terminamos o chá, deixo o cachimbo, retiro a manta das pernas, levanto-me e estendo a mão à minha outra parte para dançarmos Lets Do It Lets Fall in Love. A música termina e continuamos agarrados a dançar, com os olhos a brilhar, ao som daquela música que só se ouve pelo coração.
 
Decidimos aproveitar o que resta daquele dia em que o Sol não cedeu para descermos do alto do monte, para um passeio de jovens apaixonados, até ao rio que fica junto ao princípio do vale, de mãos dadas fomos caminhando pela margem, os peixes e as espécies verdes bailavam na água, o cheiro fresco e limpo da verdura do chão, que delicadamente pisávamos, limpava a nossa alma complementada com a harmonia que preenchia aquele espaço. A meio, paramos e sentamo-nos na relva. Coloquei a manta aos quadrados sobre as nossas pernas e ficamos a apreciar a água do rio que passava sem parar.