sábado, março 17, 2012

Pateira de Fermentelos

UMA FOTO, UMA LEITURA
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Pateira de Fermentelos 


O céu nublado neste tempo de outono toca, mais uma vez, nestas águas serenas de Fermentelos uma valsa que dança ao sabor do som da brisa que as sobrevoa, em harmonia com a tranquilidade da ordem e a utopia que só um lugar mágico pode proporcionar.

            Na matina, onde orvalho ainda pousa sobre eles, os dois barcos que esperam de mãos dadas pelo levantar da neblina, aguardam por mais uma travessia, por mais uma oportunidade de deambular pela maior lagoa natural da Península Ibérica. Ainda é cedo, mas é a esta hora que chegam os timoneiros para cada um dos barcos, altura para largarem as mãos que deslizam até às pontas dos dedos numa carícia, e bailarem nas águas apaziguadoras da Pateira de Fermentelos.

            A viagem inicia suavemente, de modo a não perturbar o cenário que ordena que tudo tenha o seu tempo, o seu espaço, a sua vivência. Remada atrás de remada deixando um lastro de ondulação que provoca a única agitação naquele habitat rico em fauna, flora e variadíssimas espécies aquáticas. As paragens vão-se sucedendo. Altura para usar a cana e atirar o isco à água e esperar que um peixe mais distraído se deixe enganar, ou não, é apenas uma desculpa para poder repousar e respirar o ar fresco que me limpa os pulmões e a minha alma. No casco, as vegetações verdes e o musgo acariciam o corpo do barco como parte integrante daquela biodiversidade. Tudo aqui funciona numa ligação única, onde todos somos uma parte do todo. Os peixes passeiam-se em liberdade, os patos aparecem a cada minuto que o dia clareia e no céu irrompem os pássaros que despertam para mais um dia no paraíso.

            Olho em volta e vejo que estou abraçado pelas árvores que me envolvem, que me resguardam, aproximando-se umas das outras de modo a que nada que não pertença àquele lugar se atreva a interferir. A cana de pesca está no chão há bastante tempo. Esqueço-a e remo, lentamente, deixando-me levar por uma força que me atrai para o meio daquela espécie de templo onde a Natureza é imponente. Deixo o barco à deriva no pousio da água. Paro, pouso os remos e deixo-me levitar naquela calma, naquela paz onde se ouvem as rãs, o barulho do bater das asas dos pássaros, os patos, a brisa que abana as árvores e, ao invés do frio que se faz sentir neste outono, há um conforto que nos envolve e uma segurança que nos aquece.

            Dormitei. Não sei se foram horas ou escassos minutos, só sei que me sinto rejuvenescido. Pego no remo e saio daquele refúgio entrando no esplendor da vista da lagoa. A cada remada sinto-me mais forte, mais calmo, mais seguro, cada remada que se segue é mais lenta de modo a que o regresso seja mais lento e, assim, mais revigorante. Chego ao meu destino. Olho mais uma vez em volta e fotografo tudo que posso na minha memória.

            Chegada a hora da despedida, pego na cana que não utilizei, salto para água e volto a juntar os barcos. As suas mãos entrelaçam-se para mais uma dança, para mais uma noite, para mais uma espera, para mais um timoneiro que quer chegar pesado e sair a levitar.