terça-feira, fevereiro 28, 2012

Ancorados na História

UMA FOTO, UMA LEITURA
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Ancorados na História



Acabei de almoçar no Restaurante do Museu do Vinho do Porto e preparo-me para digerir as delícias gastronómicas numa caminhada pelo Porto viajando pelo sentimento invicto que transpira em cada poro que separa as pedras das casas que desenham estes caminhos. Embora repita este trajeto variadíssimas vezes, ao descer estas ruas estreitas dos caminhos do Porto Romântico, que, em harmonia, serpenteiam os cantos da história desta cidade, até desaguarem nas margens do majestoso Rio Douro, vou tentar gravar na memória para nunca esquecer a beleza desta cidade, aqui, nestes jardins que rodeiam o Museu e nos envolvem de modo a que só tenhamos olhos para ver o Rio Douro a embater calmamente nos muros que protegem as ribeiras.

A beleza destas ruelas está na forma como imaginámos o passado, com uns varandins onde quase não cabe uma pessoa, relembro os livros de Júlio Dinis que tão bem descrevem esta zona esquecida da maioria dos portuenses. Com o tempo e o desgaste e esquecimento da História, estas relíquias, que são as marcas do Porto de outros tempos, já não estão como eram retratadas pelo escritor, estão velhas e mal conservadas, mas ainda assim, se fechar os olhos, sinto o cheiro dos vasos cheios de flores nos parapeitos, as janelas de madeira maciça, em forma de portadas altas, abertas  para o sol entrar a ouvir-se a vida e agitação dentro das casas. Sinto-me bem, respiro este ar puro, passeio nestas vielas vazias e imagino-as com mais vida, imagino-as com a azáfama do movimento de antigamente esquecendo o contraste deste deserto onde deambulo nostalgicamente.

Percorro a calçada num passo cada vez mais rápido, a cada casa, levo-a comigo no imaginário, idealizo uma história para cada uma delas, fantasio que outrora ali se fez uma família, ainda que agora padeça apenas e só de uma memória e tenho a certeza que cada pessoa que encontro gostaria de a contar, não a que criei, mas a verdadeira, e talvez, quem sabe, sejam similares. A passada mantém-se firme e a imaginação fervilha em histórias reais no meu quimérico, até que chego à alfândega. Hesito. Subo em direção ao mercado Ferreira Borges, visito o Palácio da Bolsa, continuo? Decido. Já não vou a um sítio há muito tempo. Sigo o andamento pelo passeio do lado direito, as pedras grandes, gastas e tortas dificultam-me o andar, têm um aspeto escuro, a enquadrar-se bem no negrume desta zona humilde em contraste com as cores e luzes dos bares que destoam e confundem a História.

Entro no túnel, ouço o barulho ensurdecedor dos carros que invariavelmente apitam. Ignoro na obstinação que tenho em chegar ao meu destino...faltam poucos metros.

A saída do túnel é o fim da minha viagem. Respiro lentamente para recuperar e sentir o cheiro do local. Procuro um local e sento-me a olhar para a frente onde enfrento o painel de azulejos do Mestre Júlio Resende, a “Ribeira Negra”. O poeta Eugénio de Andrade escreveu que esta obra era um "magnificente historial da miséria e da grandeza da população ribeirinha do Porto".

Após horas a apreciar algo tão fascinante, com aquele mural a absorver todo o meu raio de visão, não consigo deixar de pensar que a beleza desta parte da cidade se deve a todas aquelas pessoas ali retratadas, ora na ribeira a lavar roupa, ora com cestos na cabeça, ora a ajudar os pescadores. Todas elas estão perpetuadas e ancoradas na História do Porto.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Amor Sem Tempo

UMA FOTO, UMA LEITURA
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Amor Sem Tempo


O carro parou às oito horas em ponto, no parque de estacionamento do restaurante onde, durante uma vida, o casal Ventura jantara.

O parque havia sido alvo de obras para colmatar a falta de cobertura que era o drama das senhoras que investiam o seu tempo para presentearem os cavalheiros com as suas indumentárias e penteados. Passando pelo porteiro, onde incontornavelmente o Senhor Ventura dava uma moeda pela simpatia que o acompanhava ao longo destes anos todos, a porta, com os seus adornos de carpintaria efetuada com cuidado e minúcia para a abertura que havia ocorrido há mais de cinquenta anos, irrompia na vista dos seus visitantes. O restaurante mantinha o seu estilo acolhedor inicial, no hall avistava-se um balcão do lado direito, para quem espera por uma mesa ou quer apenas beber ou petiscar algumas maravilhas gastronómicas que tornam este local tão famoso. Atravessando o balcão, deparamo-nos com o maître que acompanha os clientes para as mesas, a do Senhor Ventura habitualmente reservada de sábado a sábado. A sala de jantar é generosa, mas bastante acolhedora, a decoração das paredes forradas a papel de parede aveludado, cor de vinho, a iluminação quente e amena imanada pelas luzes do teto e candeeiros de parede com abat-jour alumiavam apenas o suficiente, de modo a que fosse complementada pelos candeeiros que ladeavam cada mesa, tornando cada uma delas um espaço único e privado.

“Andas tão calada, não querias vir a este restaurante? Não te perguntei porque vimos sempre a este e digo-te, não consigo cansar-me de vir aqui, traz-me boas recordações! Lembras-te que foi aqui que me disseste que ia ser pai?”. Esticou a mão. “Gosto de sentir as tuas mãos frias e suaves, tal e qual como quando éramos uns moçoilos. Abençoado o dia que te conheci naquele baile. Lembras-te? Claro que te lembras. Parece que foi ontem e já percorremos uma vida, sempre juntos. Primeiro uma dança, depois um namoro seguido de um casamento. Os nossos dois filhos, como são uns bons filhos! E tu já avó de seis netos, com o tempo a passar e cada vez mais bonita?”. Retirou a mão. “Humm...Acho que sei porque andas tão calada, foi porque me esqueci de alguma coisa! Sempre amuaste porque sou um cabeça no ar. Sei que agora não tenho a desculpa do trabalho! Escusas recusar falar comigo, porque mesmo amuada eu acho-te a mulher mais bonita do mundo! Vá, vamos pedir. Bife especial da casa? Sempre gostaste daquele molho que o cobre e o torna macio. Não podemos abusar, mas um dia não são dias. Vou pedir igual para mim.”

O empregado de mesa chegou e o Senhor Ventura pediu os dois pratos, uma garrafa de água sem gás e meia garrafa de vinho maduro tinto. A sala de jantar estava cheia, ora de casais sozinhos ora de grupos de casais que conversavam, o ambiente era tão intimista que não se ouvia nenhum comentário entre as mesas, apenas se ouvia o som da música ambiente, naquele caso as notas de uma sonata de Chopin interpretada por Arthur Rubinstein preenchiam os vazios de alguns silêncios que pairavam no ar.

“A comida continua formidável, não te parece? Bom, já que te deu para estares calada, falo eu. Esta semana estive a rever umas fotografias. Gostei particularmente de uma que nunca expusemos, é uma em que pela altura do baile. Tu estás na rua, numa praça, e alguém te tira uma fotografia. Não consegui deixar de observá-la durante horas. Lá estavas tu com os teus cabelos fartos, soltos – não dá para ver na fotografia, mas eu acrescentaria que estavam brilhantes tal e qual eu os vi pela primeira vez – de olhar compenetrado, quase diria implacável a quem se atravessasse no teu destino. Já te disse isto várias vezes, mas nunca é demais lembrar-te: o dia em que aceitaste que eu pedisse ao teu pai para te cortejar foi o dia mais importante da minha vida. Só aí me senti completo, só aí me obriguei a ser alguém, só aí se iniciou o ciclo de vida da minha felicidade. Por esse dia, eu dir-te-ei, para sempre, que o meu amor por ti não tem tempo.”

O carro do casal Ventura arrancou passava poucos minutos das onze, saiu do parque em direção a casa.

A governanta da casa do casal Ventura, na sua ronda antes do deitar, viu a porta do quarto do casal Ventura entreaberta, e a luz de mesa acesa. Bateu e ninguém respondeu. Decidiu entrar. O Senhor Ventura estava de pijama, deitado sobre a colcha num sono profundo e tranquilo, com uma fotografia agarrada ao seu peito.