segunda-feira, janeiro 23, 2012

A Esperança na Escuridão

UMA FOTO, UMA LEITURA
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

A Esperança na Escuridão

 
A pouco e pouco foram-se esquecendo de mim, a cada dia que passava sentia que estava mais longe de tudo e de todos, até que, num ápice, nem sei bem qual foi o momento, colocaram-me neste canto, pintado pela bruma da noite escura e solitária, protegida por uma grade preta de ferro fundido enferrujado, próprio dos encarcerados. Ainda que me tenham logrado, novamente, este local obscuro, mantenho-me viva na minha imortalidade, projetando, até onde me é possível, esta luz que sempre imanará em mim por entre os quadrados desta manta esfarrapada que me cobre.
             
Aqui neste cubículo claustrofóbico mantenho a minha luz acesa, por vezes, de tanta raiva que sinto, chego a ver a luminosidade no fim do túnel, chego a imaginar que alguém me chama, que alguém precisa de mim, que uma chave preta de ferro fundido abre esta armadura e a projeção da minha claridade abarcará toda uma cidade, limpando todas as nuvens negras que pairam no ar, reabrindo nas pessoas todos aqueles espaços que outrora foram meus, e assim, prosseguindo para mais uma viragem desta jornada nublosa.
 
Não posso dizer que fiquei espantada quando dei conta que estava, novamente, renegada a este estado, seria até inocente não o ter percebido, tamanha a minha experiência de vida, mas a crença faz-me sempre pensar que mais tarde ou mais cedo as pessoas pudessem voltar a encontrar-me, evitando mais uma temporada neste local recôndito. A cada dia fui percebendo que a minha importância se reduzia, percebia isso pelos espaços – aqueles onde outrora preenchia e revigorava a alma e a determinação das pessoas – que se fechavam nesta negrura fria que corrói os sonhos, as vontades e a estima do ser humano,  deixando essa zona à mercê do desânimo.
 
A minha existência milenar dá-me a sapiência necessária para esperar pacientemente pela passagem deste estado de imponência, completamente dependente do Homem, que já é apanágio dos momentos mais difíceis da História. Sempre foi assim, desde os tempos das primeiras civilizações quando havia os períodos em que eu mal chegava para responder a todos os apelos, e noutros em que este canto se tornava a minha casa. A minha tarefa nestas situações é manter-me acesa, incandescente, de modo a que aos poucos, pessoa por pessoa se permita começar a sentir que eu lhe faço falta e, à medida que essa condição vai ganhando força, esta grade preta de ferro fundido enferrujado, se abra, lentamente, convidando-me a sair e fazer aquilo que me está destinado secularmente, pois onde há vida há esperança.

terça-feira, janeiro 10, 2012

A Rua

UMA FOTO, UMA LEITURA
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

A Rua
 

 
Era noite. Não havia vivalma a passear naquela rua, vestida de paralelos molhados pela chuva que presenteou o dia que passou. Os paralelepípedos de pedra antiga preenchiam aquele espaço vazio de tudo o que seria normal, carros, motas, caixotes do lixo, nada, não há nada a não ser o chão. Era uma estrada onde passou e passa muita gente. Os paralelos, ainda que ordenados e uniformes, estão gastos. Apesar do uso notava-se que foram cuidadosa e meticulosamente colocados um a um, pedra por pedra, com brio e orgulho de quem gosta do que faz. Devem ter uns bons anos, quem sabe se não terão nove séculos. Nesta estrada devem ter passado cavaleiros de arma em riste, as primeiras carruagens e charretes, quem sabe se um Ford T preto não pisou este chão, tão cuidadosa e sofregamente construído, antes dos veículos atuais.
 
Olhando o chão deste prisma tenho um súbito respeito por ele como nunca me tinha passado pela cabeça. O que já não lhe passou por cima e, mesmo assim, mantém-se firme na sua missão de servir as pessoas que dele precisam. Os riscos que separam cada paralelo são precisos, julgo mesmo que vejo um ângulo de noventa graus em cada cruzamento das linhas. Na altura os homens que fizeram este caminho deviam ter previsto que era preciso cuidar bem do serviço, de modo a que durasse o tempo suficiente para as necessidades das gerações futuras. Esta estrada parece-me única. Está molhada e gasta e, no entanto, está ordenada, bem formada, pronta para ser utilizada e não lhe vislumbro um fim próximo.
 
Estou sozinho. Devia ir para casa descansar, mas não consigo sair desta estrada. Parece que estou preso a ela. Tento saltar para o passeio, mas não consigo. Acho que estou condenado a percorrê-la. Tento ligar o telemóvel, mas está sem rede. Olho para a frente e só vejo a continuação de uma amontoado ordenado e simétrico de pedras gastas e brilhantes. Choveu durante o dia. Tudo levaria a crer que entrasse em choque ou cair em desespero, mas há uma calma que se apoderou sobre mim desde que estou nesta estrada, construída há quase nove séculos, por homens, onde já passou por cima dela quase de tudo e, ainda assim, ela está bela, mesmo com o negrume que se apoderou sobre ela desde o anoitecer, a luz dos candeeiros reflete no molhado que as protege e alumia o caminho. É um caminho para a frente, não consigo sequer virar-me. Começo lentamente a caminhar em frente...
 
Triiiimmmmm
 
Tocou o despertador. São horas de me levantar e ir trabalhar. Estou estranho, só me vem à cabeça que hoje deveria trabalhar para colocar um paralelo, com cuidado, com mestria e brio, um paralelo novo que pudesse ficar gasto e molhado.