domingo, dezembro 23, 2012

Nevoeiro

UMA FOTO, UMA LEITURA
 
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Fontes Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Nevoeiro


O meu corpo funde-se nas rugosidades que arquitetam os traços históricos desta cidade misteriosa e invicta que acorda para mais um dia. O meu corpo, denso e rarefeito, deambula neste matinal, passeio-me por cada espaço, por cada aresta desta urbe, desde o chão pincelado pelo brilho orvalhado da neblina – ora de alcatrão, calçada ou mesmo de paralelos gastos e escuros – até que termino o vagueio diário, e quando finalmente consigo ficar com o meu corpo totalmente espalhado como um cobertor que se instalou no ar, planando um ambiente escuro e ambíguo, levanto-me ao mesmo ritmo da vida da cidade, ao mesmo ritmo destas pessoas que fazem deste Porto tão característico, destas pessoas que encaram todos os dias com a mesma esperança, com a mesma certeza que por detrás de mim, que atrás deste cinzento escuro, chegará um novo dia, um dia que poderá ser melhor do que o anterior...

Os dias seguem-se numa rotina instalada; desde o cheiro exalado pelas padarias do pão acabado de cozer, cheiro quente que conforta a brisa matinal; o perfume da mistura das flores frescas que se acomodam nas bancas das floristas avivando o ar denso e rarefeito que emano; o “ardina” que coloca os jornais nas portas das tabacarias, presos por um fio que os aperta e pelas notícias que os sufoca; os primeiros carros a passar com as luzes ligadas a trespassar o meu corpo denso e rarefeito. Tudo se afigura igual ao dia que passou, tudo promete ser uma repetição do que já foi, mas tudo pode ser diferente.

O meu corpo que se espelhou pela cidade vai começar a levantar-se e, dentro em breve subirei, mas não deixarei de estar presente na imagem que caracteriza esta cidade, estarei bem lá no alto a ver mais um dia passar, um dia que pode ser igual ao anterior ou um dia que pode ser o da mudança.

Algures neste corpo que se espalhou pela cidade sinto uma prurido, um afagar, um esgravatar, não consigo decifrar onde, apenas o sinto, apenas sei que é distinto do habitual, apenas sei que o dia já não é igual aos outros. Como um cão que roda em si mesmo tentando ferrar a sua cauda, remexo-me, inquieto, inseguro, à procura desta sensibilidade que não sei o que é e que se agudiza, busco-a cada vez mais agitado, cada vez mais com uma ansiedade curiosa. A cada segundo que passa o escarafunchar torna-se mais intenso, mais incerto e desacertado, mas mais profundo. O meu corpo deixa-se pairar na cidade mais tempo que o habitual à procura da razão daquela novidade que está já a tornar este dia especial.

Depois de muito me revolver, e à medida do aumento daquela sensação, descubro aquelas mãos pequenas e rechonchudas a investigar o meu corpo denso e rarefeito. Primeiro vejo os seus dedos pequenos, depois as mãos rechonchudas e, num desatino infantil, dá-se um esbracejar desconcertante a furar o meu corpo, deixando um buraco grande que se dissolve no ar. Aproximo o meu olhar intenso e fixo-o naquela criança de olhos azuis celeste, que continuando a esburacar o meu corpo denso e rarefeito, e olhos nos olhos, emite uma gargalhada inocente que me evapora.
           
Hoje, foi o princípio dos dias melhores que os anteriores.


quarta-feira, outubro 31, 2012

Foges-me


UMA FOTO, UMA LEITURA


Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Fontes Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Foges-me


Foges-me. Foges-me por entre estes meus dedos jovens e imaturos que não sabem conhecer-te, não sabem chegar a ti, foges-me a cada avanço que instigo para recuperar os laços frágeis que criamos na ignorância da juventude, na belle époque da vida dos felizes contemplados que têm tudo sem esforço. Tudo era fácil e, eu, apenas eu, na ingenuidade e veleidade da imaturidade que me confortava, não percebi que as coisas se haviam tornado difíceis para ambos, era necessário sair do conforto da inércia, era necessário esforço, dedicarmo-nos a nós, dar-lhe prioridade em vez do eu…tu foste fazendo isso e, eu, apenas eu, achei que se um de nós o fizesse era o suficiente, mas não, permiti que um vidro grosso e transparente irrompesse entre nós. Sem dar conta vejo-te a fugires-me através desta parede e, quanto mais procuro chegar a ti, mais bato com a minha cara de miúdo púbere neste muro invisível e cruel que nos separa.

Com a cara colada nesta barreira fria grito bem alto que percebi, que vou fazer as coisas de forma diferente, que vou deixar que a barba comece a aparecer nesta cara de miúdo mimado, que hoje mesmo vou ao supermercado e comprarei o que quiseres, ou melhor, o que precisarmos. Farei uma lista, isso, farei uma lista de compras, vou ao supermercado e tu podes ficar em casa a descansar. Vê um filme, lê uma revista ou dedica-te a um livro. Ouviste-me? Ouviste-me? Estou a gritar e tu não me escutas, continuas a encher essa mala com a tua roupa imaculadamente dobrada aproveitando cada espaço vazio, sem desperdícios. Ignoras-me ou não me ouves, não sei bem qual das duas coisas é pior, fingires que não ouves que vou mudar ou já não conseguires ouvir-me. Mas eu continuo aqui, de cara colada neste vidro gelado a esforçar-me para que percebas que quero mudar, que quero melhorar, que não vou desistir até que olhes para mim e me ouças. Ouviste? Ouviste? Eu vou continuar aqui até que me ouças!

Começo a desesperar só de imaginar a tua ausência, começo a desesperar com o facto de me ignorares. É tarde? Diz-me, é tarde? Estou aqui aos murros nesta parede estúpida, que nem dignidade tem para ser vista, esmurro-a cada vez com mais força com a leve esperança que a possa partir e chegar até ti, pegar na tua mão, ajoelhar-me e fazer promessas que não sei se vou conseguir cumprir, mas serão as promessas que me vão na alma, ou pelo menos serão as promessas que devo fazer. É o que se espera de mim, certo? É isso, se conseguir chegar até ti tudo vai melhorar, tudo vai ser diferente. Mas este vidro irritante não me deixa, as minhas mãos ensanguentadas já me doem, começo aos pontapés, cada vez com mais força e, nada…nem o vidro se mexe, nem tu alteras a tua rotina, calmamente a colocares peça a peça na mala, vais arranjando o cabelo como se nada se passasse, ele cai-te e tu passeias as tuas mãos delicadas e maduras nesse teu voluptuoso cabelo preto, forte e brilhante, deixando-me cada vez mais desesperado.

Fechaste a mala, estás a olhar em volta a ver se falta alguma coisa. É agora a minha oportunidade. Arranjaste o fato, o cabelo, respiraste bem fundo até que finalmente te viraste. Olhaste-me nos olhos e sem que eu pudesse esboçar qualquer palavra, ouvi-te dizer: “Adeus”.

sábado, outubro 27, 2012

Travessia


UMA FOTO, UMA LEITURA

Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Travessia



Parece não ter fim esta ponte desmedida e austera, envolta neste ferro pesado e rígido, rasgada pelos raios de sol, que teimam em passear pela cidade invicta ignorando o negrume que tanto a embeleza. Caminho nela desde sempre, vou avançando, passo a passo, já a percorri a grande velocidade, em jovem percorri-a a todo o vapor, com medo que o amanhã me fugisse, vivi um sem número de histórias que marcaram a minha existência. Com o passar dos anos, a destreza com que dava cada passo, com que arriscava cada avanço foi perdendo o seu fulgor, comecei a acusar uma carga que me pesava as costas. Já fui jovem e agora estou menos jovem, já tive o cabelo forte e negro e agora tenho esta brancura que me cobre o couro cabeludo mostrando bem que o tempo passou, já tive um corpo jovem e hirto e, agora, mesmo não conseguindo erguer as costas, continuo a caminhar ao sabor do vento.

Prossigo a minha caminhada com o mesmo empenho do início desta jornada, entrei nesta ponte, de chão irregular que teima em fintar os meus pés, com o objectivo de chegar ao outro extremo, independentemente do que que possa acontecer, vou consegui-lo, com maior ou menor dificuldade, vou marchar até que os pés, que já pouco se levantam, não consigam dar o próximo passo… Foi a olhar para a frente que cheguei até aqui, desde o começo, sempre com o olhar colado na outra extremidade, sem pressa de lá chegar, apenas sabia que queria chegar lá, saboreei cada momento com o deleite que me merecia. Desde a infância até agora fui deambulando com uma incessante procura pela felicidade – caí, levantei-me, voltei a cair e voltei a levantar-me, vezes sem conta, dancei, namorei, embebedei-me nos bailes da cooperativa, trabalhei, casei, tive filhos, netos, bisnetos, entreguei-me a esta passagem sem medo do amanhã, sem medo desta dádiva que é jornadear em cima desta ponte, umas vezes pérfida, outras vezes presenteando-nos a abertura dos ferros, dando-nos o azul celeste do céu, a luz, a esperança, permitindo que essa luminância nos encha a alma e nos permita dar mais um passo a caminho da extremidade que se vai aproximando.

Hoje, ao chegar à extremidade, mantenho o sorriso de a estar a caminhar, ainda que, na verdade, o cansaço se tenha apoderado de mim a cada passada e, com isso, a força das minhas pernas já não seja a mesma de outrora. Olhando para a reta final, ainda sinto que consigo, sozinho, caminhar devagar, arrastando os pés de costas curvadas e pesadas carregando comigo esta mala – a minha mala cheia de histórias, cheia de lembranças, cheia de alegria – para quando chegar lá ao fundo, na incontornável extremidade, onde a ponte que afinal era de ferro se vislumbra em madeira branca e maciça, poder esticar-me com dignidade, olhar de novo em frente e, de costas bem estendidas, a poder abrir e com os braços fortes e musculados de outros tempos, deixar que tudo o que a encha se espalhe no ar e caia lentamente no coração de cada um dos que me acompanharam nesta jornada, porque tudo o resto trago comigo na minha alma.



sábado, setembro 01, 2012

O Bosque


UMA FOTO, UMA LEITURA
Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)
 
O Bosque
 
 
 
É tarde. Faz-se tarde. Sentado nesta cadeira de baloiço de madeira maciça, escura e com os veios profundos, resultado de tantos embalos, de tantos pores-do-sol, de tantos serões, vejo mais um dia passar, vejo mais uma vez a tua cadeira de baloiço parada, imaculada, sem qualquer rasgo, sem qualquer uso, apenas e só preenchida por um vazio de memórias, de intenções, de planos, de saudade. Vejo mais uma vez o Sol seguir para poente, de novo a sua luminância pinta no céu as cores do fim de tarde, deixando que tudo o que me rodeia se perca na escuridão que se levanta pouco a pouco. A cada passo que o Sol se afasta lentamente desta minha vista outrora cansada, a lugubridade toma conta das cores vivas e verdejantes do bosque que me rodeia. Mais uma vez, no horizonte apenas se vislumbra uma pincelada cor de laranja forte e arrojada, rematando o dia, em simultâneo com o início da beleza enigmática da noite.

A brisa noturna chega juntamente com os animais que acordam para o seu dia, os animais noctívagos começam a aproximar-se do meu alpendre, de onde é emanad0 o único ponto de luz deste recanto escondido de tudo e de todos. O bosque inicia uma sonoridade própria, primeiro uma miscelânea de barulhos – de animais, de insetos, de folhagens, até mesmo de coisas que desconheço – e, a pouco e pouco, o ruído começa a afinar-se, a sincronizar-se, transformando o que antes era barulho numa bela melodia... a melodia do início da noite. Retenho-me a apreciar a transformação, aguardando serenamente pela brisa lenta e melodiosa que chegará em  poucos instantes. Aqui, neste local que me acolheu como um dos seus, deixei-me absorver pelas suas regras, não tenho relógio, horários, as necessidades vêm ao ritmo que o bosque entende e, assim, sinto-me bem, reconfortado. Quando cheguei a este local, do qual não consigo sequer saber as coordenadas, senti necessidade de seguir esta ordem pré-estabelecida das coisas, permitindo-me entranhar cada vez mais neste habitat, primeiro à descoberta e com cautela e, quando dei conta, já estava dependente do seu compasso, dos seus espaços, dos seus cheiros, dos seus sons, não conseguindo sentir-me vivo se não me sentisse, também eu, uma peça deste puzzle. A brisa chega, com delicadeza e charme, primeiro numa espécie de cumprimento aos presentes e depois, de forma gradual, numa consistência regular e harmoniosa.

Sempre me imaginei a ter estes serões, só não os imaginei sem te ter ao meu lado. Imaginei que a tua cadeira também baloiçasse, também ficasse escura, com rasgos do uso; imaginei que estivéssemos lado a lado neste alpendre a olhar a imensa e profunda escuridão do bosque, apenas com tímidas luzes dos pirilampos; imaginei que bebêssemos um cálice de vinho do Porto para aquecer o corpo desta ligeira brisa que refresca o nosso corpo, acompanhados da nossa grafonola a proliferar uma bela sonata de Chopin interpretada por Artur Rubenstein, as vozes inconfundíveis de Cecília Bartoli ou René Jacobs na interpretação de óperas como La sonnambula de Bellini ou Giulio Cesare de Handel, ou simplesmente deixar-nos levar pela liberdade do pássaro Charlie Parker ou pela rebeldia do Miles Davis e John Coltrane; imaginei-nos a olhar um para o outro e sem falarmos lermos os desejos um do outro; imaginei-nos juntos a amar-nos.

Continuo aqui sentado nesta cadeira de baloiço sem o vinho do Porto para beber para me aquecer desta brisa que me refresca, sem a grafonola para encher o silêncio que imaginava para a enigmática noite, pelo contrário, ouço a sua melodia inconfundível, livre e rebelde todas as vezes como se fosse a primeira vez e, continuo à procura do teu olhar para nos amarmos nos desejos um do outro.

Quero ir deitar-me, mas a cadeira de baloiço não para de embalar-me, a melodia da noite começa a interpretar Lover, Come Back to Me de Billie Holiday, a brisa começa a refrescar-me mais do que o habitual, sinto uma ligeira frescura que resolvo com um gole de vinho do Porto, a tua cadeira pela primeira vez começa a baloiçar lentamente...