segunda-feira, dezembro 19, 2011

Sorriso Escondido





UMA FOTO, UMA LEITURA

Fotografia: António Tedim (http://antoniotedim.blogspot.com)
Texto: Rui Santos (http://cognitare.blogspot.com)

Sorriso Escondido



Hoje estou feliz por estar vivo nesta terra longínqua, no tempo e na história, agora acompanhada por este silêncio ensurdecedor que envolve o ar frio, que ainda nos visita todos os anos, preenchendo o vazio deste mundo, que segue a sua caminhada da vida cada vez mais despido.
 
Gosto de acordar bem cedo; entrar na cozinha escura, fria e despida, de preparar o café, arrancar um pedaço de pão ou de broa – aqui a gente gosta dela um pouco azeda – e pousar-lhe um pedaço de um enchido ou queijo que corto com a minha navalha; de descer a nossa única ruela, cheia de paralelos irregulares e alteados, com as ervas daninhas a brotarem das frinchas, saborear este cheiro puro com que só a natureza nos pode brindar, atingindo o seu ponto alto no princípio do dia, com esta frescura matinal que acaricia o meu rosto completando o meu despertar. Gosto desta rotina diária. Primeiro, visito os animais; o gado e as cabras, coloco-os a pastarem no campo verde ladeado de árvores sobrepostas que iniciam o vale, observo-os um a um, agora são poucos, mas mesmo assim delicio-me com cada gesto lento e suave que cada um deles, ao seu jeito, teimosamente repete dia após dia; sigo para o galinheiro, protegido por arame colocado sobre uns paus que serve de grade contra as raposas traiçoeiras que surgem pela noite dentro, dou-lhes o milho que plantei e colhi e deixo-as na sua vida guardadas pelo galo que se empertiga com a minha presença; sigo para a horta onde, com esta sachola, companheira de vida, trato de verificar se está tudo em ordem. Gosto de mexer nesta terra escura e fértil, enterrar estas mãos, sentir-lhe o frio e a humidade, deixando que se entranhe nesta pele grossa, orgulhosamente calejadas, rasgada pelas rugas fundas que marcam no meu corpo cada momento que vivi e que traçam as linhas da minha memória.


O Sol na vertical lembra-me de que são horas de almoçar, de comer uma gamela de sopa com a legumes da nossa horta e aquecer-me com um copo de vinho das nossa videiras. Outrora havia mais que fazer...hoje não. Volto ao gado e às cabras para as recolher, vejo as galinhas e recolho os ovos e, por fim, volto à horta para verificar se nenhum bicho me estragou os regos das plantações.

No regresso, passeio-me por esta aldeia de casas de pedras gastas pelo tempo, sobrepostas de forma desproporcionada, escuras, condicentes com as cores da aldeia, cheias de musgo e humidade, a maior parte delas vazias e esquecidas...repletas de histórias, de pessoas que apenas vivem na nossa lembrança. Passo pelo tanque, onde as poucas mulheres da aldeia esfregam as suas roupas com as mãos ao som de cantorias que conduzem os pássaros a acompanhá-las com os seus pios em harmonia. Visito os meus poucos compadres, para colocarmos a conversa em dia, saber das notícias da terra.

Após este belíssimo dia, encosto-me ao muro do campo verde onde as cabras e o gado se deliciaram, olho em volta para esta aldeia e, relaxado, deixo-me a saborear um momento de felicidade, agarrado ao cabo desta sachola, cujas ranhuras abertas pelo tempo têm uma história em segredo com as rugas penetrantes e disformes destas mãos de trabalho, que singelamente se entrelaçam numa união pessoal e intransmissível e que guardo neste sorriso escondido.

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